Há escritores que são também personalidades tão acachapantes que deles eu prefiro manter distância. Ou me vejo fugindo sem perceber. Quando paro para tentar botar ordem no que, brincando, chamo de leitura bagunçada, essa é uma das constatações que sobem à mesa e me olham com muito mal disfarçada ironia.
Tamanho
rodeio é pouco para falar do fôlego que tomei, respirando fundo para encarar uma
dessas criaturas, o sr. Normal Mailer. A figura dele sempre esteve olhando
distante, aquela sombra de celebridade da época em que essa palavra não evocava
alguém apenas famoso, mas uns poucos eleitos que de fato eram um “tampa” em sua
área.
Norman
Mailer era uma mosca meio maldita que sempre me causou um pouco de receio. Meio
como um zumbido chato ao pé do ouvido, eu sempre lembrava dele como aquele escritor
de cara fechada que um dia esfaqueou a própria esposa. Macacos me mordam: teria
sido Marilyn, logo ela? Epa, olha a confusão que a nuvem de informações
dispersas causa. (a propósito: o caso aconteceu com a segunda esposa dele, que
depois o perdoou, detalhes no Google; e o gajo mais foi casado com Marilyn, que
ideia...)
Eu
não queria saber e a lembrança do título de um de seus livros, “Os machões não
dançam”, que a revistinha do Círculo do Livro exibia como coisa para iniciados,
também não me incentivava muito. A maturidade chegou, tudo tem sua hora, e
enfim eu resolvi, precavido, claro, encarar meu primeiro Normal Mailer. Se ele
viesse armado podia estar certo de que eu também estaria prevenido. Encarei o tijolaço, digo, o risco calculado que surgiu com título
ostensivo na capa, “Os nus e os mortos”. No processo, fui logo descobrindo – ou
apenas organizando os dados mal distribuído – que o dito cujo queria mesmo, de
verdade, era inscrever-se no panteão dos grandes romancistas norte-americano.
Queria mais, ser considerado o último deles. A glória, essa falácia.
Pois
ele conseguiu, não só com “Os nus e os mortos”, seu primeiro livro, o único
considerado entre os especialistas como digno da classificação de obra prima. Conseguiu
de fato com os livros que ajudaram a fundar o gênero do novo jornalismo, que
recorria a estratégias da literatura para fazer reportagens de fôlego humano e
revelador, dispostas a sobreviver além da condição de embrulho para peixe (meu
preferido neste panteão é Tom Wolfe). Levou o prêmio Pulitzer duas vezes por
publicações assim. Não li nenhuma delas ainda, claro – mas dizem que ali todo
exagero tem sua validade, uma sentença que parece valer também para o próprio
escritor-personalidade. Não posso avançar, toda minha experiência se resume a “Os
nus e os mortos” – e adianto que não foi fácil.
Pra
começar – e o sr. Mailer nada tem a ver com isso, claro – cheguei ao título arrematando
um exemplar de sebo que, mal iniciei a leitura, começou a se desmanchar nas
minhas mãos (em meu favor, devo esclarecer que este livro está fora de catálogo
há tempos no Brasil). Costuras se desfaziam
conforme eu avançava tropegamente no romance, que é bem pretensioso – mas estávamos
em 1948, numa literatura que se vale do semidocumental para se manter de pé.
Manteve-se – com a história de soldados americanos na II Guerra às voltas com a
conquista de um território de uma ilha na frente do Pacífico – e mais que isso
saiu trotando e logo após correndo. Dizem os entendidos que nunca mais ele conseguiu
repetir esse feito em ficção pura – o termo aqui serve pra diferenciar dos
livros que publicou sob a rubrica do new jornalism. Fora soldado de fato. Não
era bravata aquela saga que parece resultar algo inútil ao final da história.
Uma série de episódios quase palpáveis em que a guerra nada tem de heroico,
louvável ou dignificante – os soldados se arriscam ao mesmo tempo em que sujam as
calças, se o amigo me entende.
Na
autobiografia “Uma vida”, o dramaturgo Arthur Miller, autor de clássicos como “As
bruxas de Salem” e “A morte do caixeiro viajante”, conta que um dia encontrou a
figura emproada de Normal Mailer enquanto esperava um elevador num prédio
novaiorquino do Brooklyn. Do que guardei da memória da biografia, o diálogo entre
ambos foi curto e antipático dos dois lados. Mailer, então desconhecido, teria
adiantado que se tornaria um marco da grande literatura dos EUA. Declaração
tomada com certa desconfiança por um Miller investido de certo desdém precavido.
Ambos vieram do Brooklyn, e o segundo fora casado com a mesma Marilyn que o primeiro
iria biografar. Não poderiam ser mais diferentes. Miller, contido e formalista.
Mailer, autopromocional e estridente.
Esses
são os fatos, vamos à minha versão: eu esperava algo como a síntese bem acabada
de um Phillip Roth, a rabugice chic de um Saul Bellow, a proposital prosa boçal
e anticlasse média de um John Updike. Mas o que encontrei foi, ao menos até o
primeiro terço do livro, uma narrativa exasperante no detalhamento e circular
na imobilidade, embora bem formatada no jogo de entra e sai do presente e do passado que nos permite acesso
à ficha corrida de cada um dos integrantes do grupo de soldados.
Não
foi um livro fácil nem agradável, mas, digamos, foi – e só. O sal de suas
letras veio de algo que os ditos especialistas também costumam exaltar: antes
de 1950 chegar ele já colocava pra dentro das páginas a fala das ruas, qual um
Plínio Marcos americanizado na marra sem visto nem documento – na verdade,
antecipando a coloquialidade que em Charles Bukowski assume na geração seguinte
um tom de marco absoluto. É dureza ler
um livro publicado quase duas décadas antes de você nascer e conseguir enxergar
como ele devastou matas que pareciam impossíveis, derrubando os muros das convenções. Mas, paciência, porque, como disse lá no
início, fugi a vida inteira de Norman Mailer e só agora resolvi perder o medo
de esbarrar na sua bravática figura numa esquina suspeita.
Pensando
bem, se eu tivesse feito isso aos 12 anos de idade, em 1978, também não faria
muita diferença. Foi meio tarde, mas eu venci “Os nus e os mortos” com a
determinação que a vida adulta me concedeu de uma maneira que nem imaginava
quando via as capas de “Os machões não dançam” na revistinha do Círculo do
Livro.
Só
tive que substituir a edição em frangalhos de algum ano dos anos 1980 da
editora Record por outra mais recente, dentro da coleção Mestres da Literatura
Contemporânea da Record-Altaya, em capa dura e dois volumes pra facilitar a vida
de quem viaja ao Pacífico no autodeclarado último romance norte-americano sem
bote salva-vidas.

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