Valparaíso, Chile, janeiro 2019
Os seres vivos mais tranquilos do mundo devem ser os cachorros de Valparaíso. Quem visita a cidade chilena debruçada sobre aquele golfo tão pacífico quanto o oceano que o nomeia se surpreende com a placidez dos bichos adormecidos bem no meio das calçadas da cidade chilena. Acordados, esses cachorros de porte avantajado e olhar marcante vagam em silêncio entre os humanos. No sono, transformam-se em obstáculos orgânicos sobre a pedra do passeio público com uma solenidade só comparável àquela que se prestava aos anciões de antigamente. Os cachorros de Valparaíso parecem isso mesmo: guardiões informais dispersos entre a parte da humanidade que habita a cidade portuária. Observadores secretos do que fazemos e de como os tratamos – ou tratamo-nos uns aos outros.
Os seres vivos mais tranquilos do mundo devem ser os cachorros de Valparaíso. Quem visita a cidade chilena debruçada sobre aquele golfo tão pacífico quanto o oceano que o nomeia se surpreende com a placidez dos bichos adormecidos bem no meio das calçadas da cidade chilena. Acordados, esses cachorros de porte avantajado e olhar marcante vagam em silêncio entre os humanos. No sono, transformam-se em obstáculos orgânicos sobre a pedra do passeio público com uma solenidade só comparável àquela que se prestava aos anciões de antigamente. Os cachorros de Valparaíso parecem isso mesmo: guardiões informais dispersos entre a parte da humanidade que habita a cidade portuária. Observadores secretos do que fazemos e de como os tratamos – ou tratamo-nos uns aos outros.
Passar por um deles – melhor dizendo, desviar-se de
muitos deles, porque é você, estranho ou nativo, quem precisa ter a iniciativa de
não causar incômodo diante do seu sono – é como praticar um ato de contrição pararreligioso.
Como rezar sem mexer os lábios nem articular mentalmente a prece – uma reza zen
pactuada entre um ser humano e uma espécie animal cujo sacramento absoluto é a
mais singela forma de humildade. Você reverencia o cachorro de Valparaíso ao se
desviar dele, em sendo turista com aquela ponta final de olhar curioso ante o
ritual, em sendo local com a naturalidade de quem vê mas já nem repara num espetacular
pôr do sol da baía em frente.
Cruzar com o sono sólido, imponente e tranquilo de um
cachorro de Valparaíso é exercer a ecologia no seu ponto mais depurado. Não
cabe aqui um ato greeenpeciano de alarde, nem uma tese que articule a redução
do número de lagartos à ampliação de epidemias transmitidas por mosquitos ou
mesmo um desenho escolar infantil com que a consciência natural é espetada de
forma a não botar a perder um potencial adulto indiferente ao meio. Não, aqui a
consciência sobre a motosserra da devastação faz barulho em silêncio, apenas
apreciando, por um instante efêmero, o sono do cachorro disposto na calçada. Se
o vivente não adquirir noção do equilíbrio necessário entre espécies animais,
vegetais e minerais – incluindo o próprio homo sapiens – ao passar por
um cachorro adormecido nas calçadas de Valparaíso, pode dar o caso por perdido.
Esse planeta está mesmo fadado a você sabe bem o quê.
E como se fosse só mais um detalhe, há a pose. Os
cachorros de Valparaíso não apenas dormem
tranquilos, como a ensinar aos homens o manjar da paz de espírito em meio ao caos
de barcos, transeuntes e ônibus elétricos barulhentos. Eles fazem isso, como
que por uma combinação ancestral gravada nos genes, todos, absolutamente todos,
na mesma posição. Que não é uma posição qualquer – se fosse um representante da
espécie humana, bem poderia ser a posição de uma criança ajoelhada de mãos
postas diante do absoluto que mal consegue divisar mas sabe que existe.
Os cachorros de Valparaíso dormem todos com o corpo de
lado e as patas alinhadas, formando um desenho meio egípcio. Que estranha
inteligência é essa que dispôs a este segmento localizado da espécie canina
dormir como figuras de um antigo livro de História Geral, evocando
involuntariamente uma civilização mágica, mística e tão antiga? O que isso quer
dizer, que mensagens os cachorros de Valparaíso tentam em vão nos passar, que
alertas fazem, que inesperados prognósticos têm para o planeta onde se atrevem
a realizar esta ocupação mais do que política? A tranquilidade que explode no
seu sono pode ser só uma pista inicial.
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