Susan Sontag, àquela maneira quase cifrada como escreve para quem, como eu, não está habituado a conceituações tão abstratas, deu-me umas boas dicas no livro “A Vontade Radical”. Entre especulações sobre a estética do silêncio (quase impenetrável), considerações sobre a pornografia (calma, não se anime), investigações sobre o filme “Persona”, de Igmar Bergman e um relato de viagem ao Vietnan quando a panela de lá fervia a plenos pulmões (já dá pra encarar), a intelectual norte-americana reserva um capítulo do livro de ensaios para mostrar como opera o cinema de Jean-Luc Godard, o papa do cinema autoral da Novelle Vague francesa, nem preciso me estender na ficha do suspeito.
“Sua abordagem de regras estabelecidas da técnica
cinematográfica, como o corte moderado, a consistência de ponto de vista e a
nitidez da linha narrativa, pode ser comparada ao repúdio da linguagem tonal
dominante na música, por parte de Schoenberg, quando este ingressou em sua fase
atonal, ou ao desafio colocado pelos cubistas a regras consagradas da pintura,
como a figuração realista e o espaço pictório tridimensional”, analisa Sontag.
Já é um caminho para quem se intriga aqui abaixo na tentativa de organizar na
cabeça os fragmentos de fogo que o canhão visual de Godard deixa no chão da
sala de exibição depois de lhe metralhar as paredes.
Só mais um pouco da autoridade de Sontag em seu livro
difícil mas não impossível: “Vamos ao último filme de Godard preparados para
ver algo acabado e caótico, uma ‘obra em progresso’ que resiste à admiração
fácil”. Preciso lembrar a tempo que este texto tem a minha idade – ou seja, foi
escrito no calor do momento em que o cineasta autoral francês ainda era um desafio
arrogante ao cânone e não o ícone consagrado que dá trabalho a um eventual
público novo de hoje em dia. A edição original do livro de Sontag é do ano em
que nasci, 1966.
De uns tempos pra cá, pleno 2011 com seu caldeirão de
reprises em forma de farsa sobretudo no Brasil, por acaso dei pra ver com
alguma atenção e chances de rentenção maior alguns filmes de Jean-Luc Godard. E
aqui divido as minhas impressões, à maneira que faço com livros na série de
videos no YouTube e também nesses blogs que alimento como quem dá milho aos
pombos na praça – um exercício ilusório de aposentadoria antecipada, já que nem
sabemos mais se teremos direito de fato a uma nesta era pós-reformas de araque.
Direto ao ponto: ao acabar de ver no mesmo dia “Uma Mulher é uma Mulher” e
“Week-end à Francesa” (Telecine Cult, não sei se ainda em cartaz), dei-me conta
de que estava começando a me sentir familiarizado com os cortes à moda de
peixeirada de feira, o enquandramento tipo traseira de jumento a caminho da
roça, certo tô-nem-aí para a ordem em que as coisas acontecem ou são mostradas,
uma profusão de imagens estanques que parecem porteiras a interromper uma
estrada sertaneja – e todo mundo que um dia viveu no sertão sabe como é chato
ter que parar a toda hora a velha Rural em frangalhos para abrir uma delas.
Enfim, ao ver um conjunto de quatro filmes de Godard
com pouco espaço de tempo de intervalo entre eles eu fui cedendo à linguagem
que o francês inventou e que o tornou o ícone do cinema que ele é. Perdi o
medo, domei qualquer irritação e daí em diante foi um tal de me divertir – sem
reparar muito nas partes que nem sempre funcionam. Tem muito disso em Godard,
parece que na filmagem ele pensou em levar o filme para determinado caminho, na
montagem ele mudou de opinião mas deixou um resquício e isso fica lá na cópia
final como um cordão puxado numa roupa mal costurada. Não é pra implicar com
isso – é para incorporar tudo na massa significativa final do filme e pronto.
Minha cunhada Titina Medeiros me contou uma vez que
nos ensaios de “Sua Incelença Ricardo III”, a adaptação do clássico teatral
dirigida por Gabriel Villela para o grupo Clowns de Shakespeare, este - Villela, claro, e não o bardo inglês –
costumava responder assim quando lhe perguntavam como a plateia iria conseguir
entender aquela profusão de cenas, situações, falas e cantos que misturavam um
dos personagem mais diabólicos da dramaturgia mundial com os rocks do Queen: “O
público entende”. E ponto final.
Pois é, num filme de Godard é preciso partir dessa premissa – o público entende, desde que aceite e não fique cartesianamente tentando ligar os pontos enquanto a figura já está lá, completa e múltipla de significados. Este pode ser o primeiro ponto de minhas notas, mas eu cheguei a outros nesse esforço pessoal de entender o que há nos filmes de Godard que parece dificultar mas na verdade enriquecem a experiência de quem se arma de coragem e sensibilidade para vê-los. Não vou perder tempo aqui contando sobre a busca por uma forma de cinema que fugisse do formato consagrado dos estúdios norte-americanos ou a incorporação dos temas políticos que sacudiam o mundo ou ainda o prazer em desfazer dos valores burgueses numa França marcada pelo rejuvenescimento de maio de 68. Isso todo mundo já sabe, já leu.
O que me interessava era o efeito mesmo que sozinho
experimentava, sem desconhecer – é lógico, já que o cinema não existe deslocado
dos fatos do mundo – o contexto cultural em volta e sem poder apagar da mente
tudo o que já lera, vira ou ouvira sobre o cineasta e seus filmes. Nessa
pisada, veio-me outra constatação: se o expectador tiver vontade de fazer xixi
no meio da projeção ou da exibição caseira em DVD, streaming ou o que seja,
pode ir. Precisa dar pausa não. Ah, mas vai que perde uma cena importante.
Paciência. A forma como os filmes de Godard são reconstruídos pós-filmagem tem
um caráter aleatório que, acredite, se você perder cinco minutos porque foi ao
banheiro, talvez enriqueça sua experiência na medida em que acabou,
involuntariamente, refazendo a montagem original do filme. A falta de uma cena
pode fazer o filme tomar outro sentido pra você. Tenho a impressão de que o
próprio Godard teria um prazer supremo em constatar isso. Saiam um pouco do filme e ele poderá se
tornar melhor. A montagem é sua também. Não seja um tipo de público sempre tão
obediente – isso não combina com os rapazes da Nouvelle Vague.
Assistindo a “Week-end à Francesa” tive a impressão de
que o ponto de partida de Godard está muito ligado à infância. Se você entregar
um equipamento de cinema completo a um menino ou menina de uns 8 anos, deixá-lo
filmar e depois deixá-lo também montar as imagens coletadas poderá ter como
resultado um filme com muitas características em comum com o cinema de Godard.
A cena em que um garoto inferniza um burguês impaciente que está saindo de um
pátio de estacionamento nesse último filme citado pra mim teve muito do ponto
de vista daquele próprio menino em cena. Uma criança comporia a cena de uma
maneira muito próxima à que está no filme, acredito. Dirigiria os atores e – importante – usaria as cores ambientes de
uma maneira muito aproximada. Talvez por isso a montagem final sem a qual os
filmes de Godard não seriam o que são lembre muito um lego audiovisual. Ele monta
os filmes do jeito que vemos nos cinemas ou nas nossas telas domésticas, mas
parece ter tido mil outras opções, desde que nunca de forma linear. As vinhetas
visuais – imagens paradas, qual selos, que usa entre uma sequência e outra ou
às vezes dentro da própria cena, assim como os letreiros de que abusa sem pedir
permissão – não são menos emblemáticas
de um mirada infantil no sentido sério da expressão. Não por acaso, numa cena
de “Week end à Francesa”, um pianista comenta que Mozart é fácil para crianças
e iniciantes e muito difícil para pessoas experientes.
Godard fez filmes-bloquinhos, é o que constatei
assistindo a, nesta ordem, Pierrot Le Fou (O Demônio das Onze Horas), O
Desprezo, Uma Mulher é uma Mulher e Week-end à Francesa. Curioso: nunca consegui
assistir a todo o “Acossado” – tem problemas não, agora estou ainda mais pronto
a aproveitar cada segundo desse que foi o filme inicial dessa cinematografia
tão particular, definitiva e, hoje, consagrada. São filmes ótimos para “desaprender” – um processo
cognitivo que é muito bem vindo nos dias de hoje quando as facilidades do mundo
digital podem causar certa padronização. Sim, filmes indicados para desmontar
as técnicas manjadas de pessoas “experientes” como parece que quis dizer o tal
pianista.
O inesperado é o óbvio quando se trata de um filme de
Godard. Sempre que se fala em plano-sequência a primeira citação é da cena de
abertura que Orson Welles deixou em “A Marca da Maldade”, considerada um primor
técnico e dramático desse tipo de filmagem. Não sou lá muito lido em cinema,
mas nunca ouço ninguém lembrar a interminável sequência do engarrafamento
causado por carros enguiçados em “Week-end à Francesa” – muito superior sob
qualquer ponto de onde se olhe. Welles parece controlar cada frame de seu plano
consagrado. Godard parece jogar com os elementos do imprevisível, ainda que
estejamos falando de cinema, um ofício onde o planejamento mora onde menos se
espera e a ilusão fica somente por nossa conta do lado de cá da tela.
Mesmo assim, constato: o plano-sequência do
engarrafamento do filme francês parece a própria representação do risco que se
fecha a qualquer limite. É uma profusão de elementos que faz os jornais velhos
levados pelo vento em “A Marca da Maldade” parecerem aspirantes à naturalidade
de uma reconstituição. Aquilo sim é correr o risco de colocar numa mesma cena
contínua tantos elementos quase atingindo o ponto de saturação da plateia – mas
“o público entende”, não é, Gabriel Villela? A sinfonia ruidosa de apitos, a
variedade dos carrinhos, as pequenas situações entre um veículo e outro, os
objetos de cena que incluem até uma lhama mastigante e o final hiperbólico da
representação toda parecem um curso prático de cinema inteiro.


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