Morar em Brasília tem dessas coisas. Estava à toa na vida andando entre a rodoviária do Plano Piloto e o Palácio do Congresso Nacional, buscando nem sei bem o quê naquele vasto espaço com ministérios de um lado e de outro como se fossem peças de um dominó gigante prestes a desabar uns sobre os outros quando um tanque vindo também não sei de onde me despejou uma baforada de fumaça tóxica narinas adentro. Ainda bem que eu estava de máscara. Mas nem sempre a obviedade da covid é o inimigo a postos na esquina mais próxima, caso esquinas houvesse. Fugi pra casa às pressas, confuso com a situação, mas outro susto me esperava ao abrir a porta do apartamento numa Asa Sul bucólica com seus jardins urbanos inimagináveis em qualquer outra capital caótica do país em desagregação: dei de cara com um casal aos beijos na minha sala de estar. Continuava tudo muito confuso, mas ainda assim eu era capaz de divisar os rostos em convusão naquele beijo francês de fim de novela: eram Carlos e Maura, o casal de guerrilheiros que a ficção e a realidade juntaram na mesma cena do meu pesadelo ocasional.
Nem a saída de cena mitológica deste Tarcísio Meira
icônico para a história real e ficcional do país tem poder de causar tamanha
ironia. Em Roda de Fogo, rodada justo no período em que o país elegia a
assembléia constituinte que nos deu a carta de direitos sociais de 1988, cada
diálogo pode ser um triste comentário cruel e involuntário sobre o futuro do
então distante 2021. Maura era Eva Wilma, outra perda do duro presente,
representando com sua habitual maestria uma ex-guerrilheira urbana que, como
poucos, sobreviveu à repressão policial do período após sucumbir à resistência
armada que o fechamento de todos os canais de expressão política decretara. Ela
volta ao Brasil tremendo de medo – imagine se Maura pudesse sonhar minimamente
com o futuro, assim como cada um dos brasileiros que assistiram à exibição
original em 1986 – de que aquela conversa toda de redemocratização fosse só de
brincadeirinha. O trauma da tortura estava por trás de cada fala da personagem
e, sim, ela vai, como ocorreu de fato com a também atriz e então deputada Bete
Mendes, dar de cara um dia com seu
torturador em pessoa. E não é o general Hélio d’Àvila, uma caricatura perfeita
que os autores montaram para zoar os militares em retirada mas que, as ironias não param, lembra muito
vários dos que estão em cena no governo em vigor. Mas a fumaça do tanque
soprada no meu nariz perdido num pesadelo ao menos mostram que, se o
inacreditável se realizou, também o fez dessa maneira tosca e mambembe, com a
profusão de Pazuellos tão arrogantes quanto atrapalhados, pra não falar no
chefe, que tisna a bandeira de qualquer ordem ou instituição.
Marighella, o mulato baiano filho de preta com italiano que resultou num caso típico de brasileiro de seu tempo e lugar, impressiona pela capacidade de resistência. Ele não tem o pavor nem um pouco fictício de uma Maura e sim a pele grossa capaz de reter as chibatadas de mais de uma ditadura e só cair diante da última delas num cerco que fez do interior de um fusca um paredão de fuzilamento. Passa quase que uma vida inteira nos desvãos da clandestinidade e ainda assim emite, das sombras, uma luz carismática que o faz querido até fora do círculo da política de fato. Por um curto período, arradia publicamente essa capacidade de se fazer notar como constituinte de outra assembléia progressista – a maior que tivemos nesse quesito, quase ao ponto da ilusão em relação ao país em que funcionava, e que daria origem às Constituição de 46, a mais odiada pelos refratários ao progresso igualitário.
Foi esse casal nem um pouco imprevisível que encontrei
aos beijos na minha sala, ambiente que devem ter julgado seguro em 2021, sem
saber que lá fora grassa uma ordem caótica e destrutiva que tenta emular os
miasmas de ditaduras de antanho. Acordei do sono ruim e do pesadelo inesperado
com o som da televisão ligada, dando a notícia da morte do Tarcísio Meira que
também está nesta Roda de Fogo que ri da gente do fundo da tela plana de alta
definição, como se dissesse pra gente do lado de cá e de hoje, cuidado, vá com
calma, 1986 lhe observa. É como se Renato Vilar, o empresário grosseiro de
Tarcísio Meira naquela história, cobrasse ao telespectador abobalhado: o que
vocês, imbecis, fizeram com toda aquela esperança do meu tempo? Meremos o puxão
de orelha, e como. Com uma ironia suplementar: a novela elegia um empresário
com paradigma de corrupção – ele e seu entorno, formando por financistas
vorazes e advogados comprados. Sempre foi mais fácil culpar os políticos, pois
não?
Parece provocação do sistema Globo insatisfeito com a
forma como o governo que ajudou a eleger indiretamente o tem tratrado essa
reedição em streaming de Roda de Fogo. Tem muito a dizer à época atual, assim
como a biografia escrita por Magalhães. Leia o livro, veja a novela, use
máscara contra a fumaça e saiba reconhecê-la nas tantas vezes em que tem sido
usada para disfarçar o mau cheiro do desmonte do país. No diólogo entre os anos
passados e o tempo atual, 86 menos 64 é igual a 21 – a matemática da história
brasileira segue uma aritmética diversa.
Quisera pudéssemos maratonar a realidade, acelerando a montagem desse
filme ruim. Mas temos que nos contentar com a reexibição de um passado que
grande parte da população – que a viveu de fato e tem idade para lembrar – preferiu
esquecer, quando não ignorar. O pesadelo continua, quer você siga dormindo ou
faça a opção de permanecer acordado.

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