NO TRIBUNAL COM IAN MCEWAN

 


Ian McEwan ameaça perigosamente o reinado de Umberto Eco que, morto, coitado, nem pode se defender. Esse tribunal de preferências tem no banco de jurados a minha baça pessoa. E o que digo aqui é mais simples do que sugere minha baixa metáfora: o escritor britânico vem avançando, livro a livro, à medida em que os leio, para conquistar o lugar “meu escritor favorito”, essa categoria mais que pessoal e como tal absolutamente distante de classificações outras como “melhor romancista”, “estética mais apurada”, “mais premiado” e quetais.

Isso: o britânico me conquista a cada última página que viro de seus títulos. Digo isso após encerrar “A Barata”, cujas citações quase literais a situações e pessoas célebres da triste atualidade conseguem divertir e indignar ao mesmo tempo. O livro é uma sátira ao Brexit, a retirada britânica da União Européia, mas também ao contexto todo em volta, com a ascenção de rasas e impacientes tendências políticas de imediatismo burro; o absurdo todo que vai de Trump a Bolsonaro, todos citados lá.  Mas com que maestria essa novela é construída a partir de dois elementos que acrescentam ainda mais consistência à piada toda, a inversão da Metamorfose de Kafka – aqui é uma barata que acorda homem, e isso fará toda diferença na forma como o Brexit é retratado – e a alusão à retirada britânica do bloco europeu como uma amalucada operação que inverte a circulação do dinheiro nas ilhas. O trabalhador paga para ter emprego; em compensação é forçado a comprar uma determinada cota de produtos para manter o sistema de consumo e este é apenas um exemplo dessa confusa nova ordem.

Soa absurdo? A ideia é esta: para abarcar as maluquices de um apressado Brexit que angariou simpatia até mesmo da esquerda local, só mesmo criando na literatura um tal “reversalismo” que vira tudo de cabeça pra baixo, salários, sistema financeiro, exportações e quetais.

O livro é curto e, mesmo precedido daquela boa recepção que me chegou aos olhos e ouvidos, não esperava tanto dele após ler o título anterior, o excelente “Máquinas como Eu”, em que o escritor leva ao extremo todo o contexto de avanço digital em voga. Para isso, constroi uma falsa ficção científica situada no ano de 1982. Neste futuro alternativo (e eu lembro inevitavelmente de “O Homem do Castelo Alto”, de Philip K. Dick) os britânicos perderam a Guerra das Malvinas, Margaret não está com aquela bola toda e um matemático gay entrega ao mundo a criação máxima em termos de mercadoria inteligente – humanos sintéticos que você pode comprar e levar pra casa. Será que nossa humanidade resiste a este tipo de intruso tecnô adquirido com se compra um carro de luxo – é caro, claro, mas possuir um deles é sinal de status elevado.

Pois “A Barata”, sendo mais enxuto, é ainda mais exato no que proporciona de constatações a partir de seu falso Brexit. Ambos têm essa marca de McEwan, os pontos de partida mais férteis e que dialogam, quando não com os desmandos da atualidade, com os cânones populares da literatura. É assim em “Enclausurado”, outro primor de contenção distentida, em que a vida aqui fora é observada, analisada e mesmo narrada por um feto na barriga da mãe. Não uma mãe qualquer, mas um clone possível de Gertrudes, progenitora de ninguém menos que o Hamlet shakespereano, pronta para trair o pai da criança com o tio da pessoa em formação. É como se McEwan colocasse a humanidade pusilânime do mais famoso dos príncipes literários dentro de um útero dos dias atuais e de lá nos lançasse seus novos incômodos.

Em todos esses livros – e mais alguns a que chego já já – a escrita de Ian McEwan foi, para o leitor que sou, solidificando-se  como cimento a secar ao sol. Desenvolvendo para mim do lado de cá dos livros uma forma textual que, caso eu o ouvisse conversando casualmente com outra pessoa numa esquina qualquer certamente o identificaria de pronto. Acostumei-me com essa sua voz exata e de ironias que nunca vão além de certo limite – britânico, yes. As próprias premissas dos seus livros, de tão marcantes embora tão simples – ou por isso mesmo – já são parte desse texto-voz que me chega tão familiar. Quando um escritor chega a esse ponto na relação com o leitor distante e anônimo é que a festa está começando. Sinto isso com o já citado Eco e também com Machado de Assis, Jack London e Jeanne Araújo, só pra citar três exemplos bem distantes no tempo e no espaço. Você que me lê agora certamente tem os seus.


O curioso é que Ian McEwan não me chegou aos olhos por meio de resenhas celebratórias ou recomendações à prova de qualquer dúvida. Ao contrário, veio sob a reprimenda de uma amiga leitora que o detestou à primeira vista. O livro era “Reparação” – que em Portugal, curiosidade, foi intitulado “Expiação” – e a amiga me escreveu uma carta – sim, uma carta, parecia trecho de romance do próprio McEwan – instando-me a ler o tal romance que estava nas listas como entre os dez melhores de todos os tempos, classificação com a qual ela absolutamente não concordava. Mais: achava um absurdo. Para ela, o livro não tinha coerência ou personalidade. Nele, tudo lhe soava falso e impostado. Como é que um autor daqueles estava sendo celebrado assim?

Minha amiga não era uma pessoa distante do universo livresco. Ao contrário, uma de suas atividades profissionais havia sido inclusive a revisão de livros a serem publicados por uma editora bem respeitável. Mas “Reparação”, pelos motivos pessoais que todo leitor tem o direito de reivindicar, bateu na trave das preferências dela. O que me cabia? Ler o livro, no exemplar que ela teve o cuidado de me mandar – tempos depois eu descobriria que tinha “Reparação”  em casa, no meio de uma coleção que mistura McEwan com outros autores contemporâneos.

Essa minha amiga leitora que está sempre me espezinhando no bom sentido costuma me fazer uma pergunta quando eu, tremendo de pavor, tomo a iniciativa de lhe indicar um livro. “E se eu não gostar?”, ela reage, como a dizer que vai parecer mal educado de parte dela ou por outra de minha parte ao fazer uma indicação já esperando ser correspondido na recepção que o livro terá junto a ela. Pra encurtar a conversa e terminar essa minha diatribe sobre o sr. Ian McEwan, aconteceu o óbvio nesses casos: eu gostei do livro – assim como outras leitoras que conheço; algumas inclusive meio que idolatram a história da irmã mais nova que tenta, de uma maneira torta, reparar o erro cometido contra a irmã mais velha na adolescência; e parece que este livro é objeto de certo culto entre as mulheres, fico por aqui.

Fiquei tão cismado com essa teima em torno de “Reparação” que tempos depois o reli, naquele exemplar que tinha em casa. São minhas pobre histórias de leitor bagunçado que divido com quem quer ouvir. E então, pra minha sorte, resolvi, ainda cismado, encarar o livro seguinte (na minha ordem de leitura, não de lançamentos do autor), que foi “Serena”, o mais novo nas livrarias naquele momento. A história metalinguística sobre a fruição mesma da leitura de um escritor me familiarizou um pouco mais com McEwan. Vieram “Amsterdam” e a bomba implosiva que foi “Enclausurado”, depois “Máquinas com Eu” e  “A Barata” e aqui estou.

O tribunal prossegue, outros autores sentam continuamente neste feliz banco dos réus quanto mais livros vou lendo, não tenho mais elementos para prosseguir com as metáforas – se eu fosse Ian McEwan isso jamais seria um problema – mas o recado está dado, a dica jogada a quem se interessar por ela, até a própria amiga que me apresentou ao autor. Achei um voz amiga, à maneira que os escritores conseguem estabelecer essa diversa forma de amizade. Estou feliz, é mais uma companhia para a solidão da cadeira onde me recosto para entrar nessas histórias, sátiras, farsas, descobertas.

O veredicto é de inocente até que venha um próximo autor, um novo livro.

 

 

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