Estou em Brasília desde 1995. É tempo suficiente pra
ter visto a cidade mudar, novidades surgirem e morrerem, livrarias fecharem, lojas de discos sumirem, quadras, modas,
tendências e desvios subirem e descerem nos altos e baixos do que é ou não é
pra se seguir. Vi a Feira da Torre mudar de lugar, as salas de cinema do Damata
na antiga Academia desaparecem das margens do Lago, o Sudoeste inteiro nascer
do nada, mas morar numa cidade de natureza tão mutante talvez explique o ineditismo
do que fiz hoje. Pela primeira vez em 26 anos, banhei-me nas águas do Paranóa.
Foi aqui perto de onde moro agora, no final da península
que é o bairro do Lago Norte. Um calor daqueles que faz de qualquer andorinha
um verão completo, uma falta danada do ruge-ruge de Copacabana onde acabei de
passar uma semana com pandemia, máscara, muito álcool em gel e tudo, e o que se
me apresentou à mente foi o lago, aqui tão pertinho, margeando meu endereço em
QIs e QLs, insinuando-se ao final da rota principal que leva da primeira à
última quadra num parque pequeno, simpático, de poucas árvores e muito vento,
um respiro urbano como só Brasília sabe oferecer em segredo – suas alcovas
antipolíticas com que nem sonham os moradores das Copacabanas espalhadas pelo país.
Acampei com cadeira de praia, guarda-sol desnecessário
pois que as árvores garantem sombra amiga, livro de Susan Sontag e loção
antiqueimaduras num primeiro recanto, assim a uns cinco passos da margem, e tão
logo estava aquecido a ponto de encarar a água que supunha gelada – não era –
lá me fui em direção ao lago propriamente dito. Antes preciso dizer a quem
desconhece Brasília que o lago Paranoá são vários. Tem aquele tristemente famoso
da era Collor – que de certa forma, continua existindo e como, o lago dos
exibicionistas de jet ski e lanchas – como tem o da praia-povão aqui mesmo nas
cercanias de onde vivo, assim como tem o lago dedicado a Iemanjá lambendo as
bases da ponte que, indecisa como o Brasil sem norte, ora tem nome de general
ditador ora se trata como estudante morto pela mesma ditadura. Não culpem
Brasília por ser um reflexo das explícitas contradições brazucas – aqui ocorre
apenas de princípios, pessoas, campanhas contrárias dançarem a noite inteira
sob o luar do cerrado, em quadras de prédios baixos, o que deixa as coisas mais
claras, limpas, diretas. Na balbúrdia copacabaniana do Brasil lá fora dá-se o
mesmo; só não aparece tão desenhado quanto aqui.
Voltando ao lago, este a que me refiro é, como disse,
a porção calma de água ao final de uma península onde moram professores da UnB,
viúvos daquela ditadura da qual a cidade parece não conseguir fugir, solitários
trabalhadores urbanos que habitam blocos e blocos de kits dispersos entre as
quase montanhas do bairro e outros habitantes. Tomei coragem e entrei na água
com respeito e cuidado. Respeito porque esse lago afinal foi o que permitiu que
essa cidade fosse feita, numa cadeia de acontecimentos que toca a minha pessoa
a partir do momento em que vim pra cá tomando um caminho que me refez a vida e
me tornou a pessoa que sou. Cuidado porque sempre tive a impressão de que o
lago Paranóa é assim como uma Praia do Futuro, em Fortaleza: anda-se um pouco,
parece sempre muito rasinho mas, de repente, não mais que de repente, abre-se
um buraco sem fundo e você desaparece da face do cerrado.
A água do Paranoá é vermelha como a terra que recobre
este planalto. Completamente opaca – e ainda mais parecia estar hoje, uma vez
que muita gente teve a mesma ideia que eu e foi se banhar em suas águas (calma,
se há um lugar onde o distanciamento é, mais do que possível, quase uma
inevitabilidade, é Brasília, e nas margens do lago não seria diferente). Ao pisar
no fundo do lago, mesmo no rasinho, descobri que a superfície é fofa, mole,
grudenta. Há uma laminha no fundo do lago o tempo todo – tudo o que eu menos
gosto em açudes, rios, mares. Mais do que sentir que o lugar dá pé – tenho
pânico de afogamente desde uns 10 anos, quando quase me fui numa aventura mal
administrada – me dá certo asco sentir lama onde piso, ainda mais se piso
embaixo dágua. Pois bem, a lama só piora – vai ficando mais e mais espessa,
envolvendo, como uma esponja extraterrestre à medida em que avanço na água,
sempre atento ao risco de um buraco inesperado quebrar aquela caminhada meio
Cristo sobre as águas. Nem Cristo deixaria de reclamar daquele bolor nos pés
que, numa segunda investida, em outra parte da margem, descobri que pode ficar
pior, substituída por pedrinhas que viram pedregulhos afiados. Cortei o pé numa
dessas, do tipo de corte que na hora a gente nem sente.
Para colocar o corpo todo abaixo da água, de uma vez, mesmo
mais à frente em relação à margem, descobri que só se abaixando mesmo. Não consigo
jogar o corpo num lugar cuja base é uma meleca pegajosa, por mais natural que
seja – ou pareça. Então para se banhar no lago Paranoá, ao menos no ponto em
que tentei, no final da península norte, só curvando o corpo como quem faz uma
reverência à paisagem em volta. Como quem se humilha ante o horizonte desabrido
à frente. Como quem reza com o corpo contrito – sem palavras inúteis, incapazes
de desfazer a lama do fundo. E você fará
como eu se tentar, porque a paisagem em volta, diante dos seus olhos, é de um
descortinamento muito mais claro, direto, pétreo, mineral do que aquela lama
orgânica que faz tudo borbulhar sob a couraça do pé que pisa a linha dágua.
Do Parque das Garças, esse o nome oficial do lugar, bem
ao lado do Clube do Congresso, dá pra ver Brasília toda – parece uma
abreviatura da cidade, acredite. Se um dia vier a Brasilia e só tiver duas horas
pra ver tudo, saia do aeroporto, cruze a cidade pelo Eixão, entre no Lago Norte
e, lá no final, caminhe pela trilha coberta de brita até o ponto onde a água
lhe obriga a parar. Levante a vista e aprecie: do Palácio da Alvorada assim meio
de lado até o último ministério, está tudo diante de você, incluindo os condomínios
beira-lago e as torres do Congresso, típicos marcos da paisagem do lugar. Levei
26 anos pra chegar a essa constatação, no dia de hoje. Já poderia ir embora de
Brasília. Da lama às quadras, excluído o caos jamais aparente, a cidade se
reapresentou pra mim de um jeito muito dela. É Brasília que gera gosto e desgosto
fazendo o seu melhor, mudando impressões como quem ergue um novo bairro em meio
às queixas dos preservacionistas.

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