De um dia para o outro, parece que tudo se iluminou.
Um interruptor mágico e
oculto foi acionado por um dedo poderoso em alguma escala interplanetária à
qual não temos acesso.
Dias quentes de volta, luminosidade
quase rosa lambe móveis, paredes, gramados.
O ar frio que boiava a um
palmo do chão foi varrido pelo sopro do que está muito acima de nós.
Já posso pisar descalço
pela casa inteira sem sentir que caminho sobre cacos afiados de vidro térmico a
zero vírgula dois graus.
Não temos acesso ao
interruptor, ele é como a grande interrogação que nos acompanha em dias
quentes, mornos, frios ou gélicos.
O interruptor faz da
gente o que quer, e o máximo poder que temos é o de saber que precisamente
entre os dias 14 e 15 de agosto, em Brasília-DF, Planalto Central do Brasil,
cidade esquemática de setores assins e assados, o clima vai mudar de uma ponta
a outro extremo.
Pelo menos durantes as tardes.
À noite, o dono do interruptor invisível nos proporciona um tal clima de
deserto, friagens resistentes contra dias de pessoas se derretendo felizes,
caso sejam como eu, amem o calor quanto mais velhos ficam, mais próximos do
interruptor, que deve estar instalado nas cercanias do grande dia das nossas
despedidas certas, porém não determinadas assim no calendário como a passagem
do 14 para o 15 de agosto.
O interruptor deve ser
desses do tipo leve, que funciona mal você encosta o dedo indicador sobre sua
superfície branca, silenciosamente neutra. Reparou como os interruptores parecem
em geral neutros nas lojas de material
de construção?
Voce entra, dirige-se à
sessão de equipamentos elétricos de revestimento para quem está construindo ou
reformando, e aquela multidão enfileirada, perfeitamente ordenada, de interruptores
noventa e nove por cento brancos se lhe apresenta, para produzir dúvida nos
seus olhos indecisos. Com arestas ou sem? Um quadrado contendo o retângulo do acionador
ou um triângulo para dar um balanço diferente? Com um ligeiro volume na parte
em que se aperta a tecla acionadora ou liso de tudo? Básico ou avançado?
Plástico comum ou superior? Com detalhes em transparente ou sem? Mas sempre
branco.
Se algo com cor houver
será para um quarto infantil, certamente, sim, provavelmente, para arrancar a
criança da brancura sem matizes que é a vida adulta, engabelar aquele pequeno
ser enquanto ele se desenvolve para crescer saudável, inteligente, ativo,
produtivo e tudo isso até o ponto em que se torne um adulto e acabe na sessão de interruptores de
uma loja de material de construção disposto a escolher o modelo que melhor
combina com sua distinta personalidade entre a massa branca da porção de
humanidade sem cor que o rodeia. Mas que seja branco, para manter a raça íntegra
em sua obediência descolorida.
Nem se atreva a pensar muito
no interruptor maior, o líder daquela multidão exposta na loja de material de
construção, aquele que comanda os ventos, as noites, as gradações térmicas das
estações, sejam as divididas por quatro dos mundos humanos situados acima do
nível de civilização esperado ou aqueles outros terceira categoria abaixo da
linha do Equador onde o ato de apertar o interruptor significa mudar
abruptamente a embalagem do mundo. Especialmente em Brasília-DF, Planalto Central
do Brasil entre 14 e 15 de agosto de qualquer ano, quando o quarto da
criancinha com os raros interruptores coloridos para distrair sobre a sina do
futuro repentinamente – sem gradação, com as rupturas dos desertos – deixa-se
envolver por um halo novo, uma vela imensa a espalhar cera derretida no ar,
subindo do chão ao teto, o interruptor agindo, queimando.
O quente massageira as
peles antes vincadas pelas agulhas do frio seco, e agora a seca vermelha é quem
manda no território deste pedaço da nação onde deputados e senadores votam
vetos, vetam votos e vestem ternos capazes de exterminar com lança-chamas de
tecido caros a política, ambiental ou não.
De um dia para o outro, o
chão fica ainda mais vermelho onde há construções revirando as camadas expostas.
As árvores tortas e de troncos espinhentos tiram sarro tendo autênticas crises
vegetais de risos diante dos humanos vitimados pelo rigor do clima – aqueles que
se incomodam, querem morar na Islândia, sentem saudade dos pampas, clamam pela
Amazônia, querem ser transportados como for possível para Alter do Chão.
Não é o meu caso, que o
espinho do cerrado só me atiça a familiaridade não de todo perdida com o cacto
do sertão onde brotei, numa terra tão seca quanto esta agora, embora menos
vermelha de vergolha por ser terceiro mundo sem chance de redenção.
Daqui até novembro se
estabelecer, será uma faixa exclusiva de calor pra realinhar minha pessoa com o
migrante em que me dirfarcei, ocultando dos que tão bem me receberam que
talvez, olhe lá, com esse calor saboroso, não terei sido sempre de aqui, tendo
apenas retornado quando deixei de ser a criança no quarto com interruptor colorido
apenas para não me antecipar aos dramas e necessidades, inclusive migratórias,
da pessoa grande que me tornarei.
Isso seria verdade,
possível e bem provável se no meu quarto
de criança houvesse um interruptor como esses de agora – brancos, neutros, equidistantes
das emoções primárias, elegante em seu desapego. Não era assim no meu quarto de
menino, em tempos em que um interruptor já era um avanço sim em relação às
lamparidas que se ligava com um sopro e não com um dedo.
Meu quarto de menino era
avançado na geografia descritiva da pobreza sem miséria. Eu tinha luz elétrica
em casa e se tinha luz elétrica, com aquela lâmpada de 25 velas que consumia pouco
e não nos custava muito na conta da Cosern, haveria de haver um interruptor
para acioná-la. Mas era um interruptor humilde, um fiel seguidor ajoelhado nas
missas dominicais daquele interruptor supremo que me exigia aleluias e me
devolvia graças de que eu, tão distraído, nem me dava conta.
Meu interruptor era
pobre, mas nem por isso menos carregado
de simbolismo, beleza e poesia. Ele não ficava grudado nas paredes como os de
hoje em dia em Brasília-DF, Planalto Central do Brasil, onde a quentura passa
seu cimento sobre o calor juramentado entre 14 e 15 de agosto.
Meu amado, saudoso – será
que ainda fabricam daquele modelo, alguém ainda sai pelas lojas de material de
construção em busca de um similar para evocar tempos passados? não sei –
interruptor não se apegava a nada.
Quase nada. Era um
interruptor de fé, acreditava na suspensão da energia e quando tinha vontade –
ou ao menos o estímulo de alguém mais alto que sem querer nele encostava ao
caminhar pela casa – balançava-se no ar como um brinquedo infantil. Meu interruptor
de antigamente brincava de canoa balançado no mar de ar quente que era o meu
quarto, minha casa, minha rua, a cidade toda lá fora, a estrada até bem longe
quando chegava, muito fora das minhas possibilidades, às proximidades do mar.
Meu interruptor era
daqueles que não estão presos nas paredes, mas atados por um fio ao teto aparente da casa, em conversa permanente com
os caibros que sustentam o telhado. Para acionar meu interruptor você não
estendia o braço para a parede, mas para o alto. Era muito mais sagrado. Crianças
não tinham direito a ligar o interruptor – soube que por isso mesmo era comum
entre as crianças daquele tempo e daquele lugar, o Seridó setentista de circos,
tevês em branco e preto e banhos de chuva em bicas quando havia inverno – o pavor
do escuro.
Eu tinha pavor do escuro
e não conseguia acionar os interruptores até atingir certa idade à prova desse
tipo de medo. Combinava bem o temor do preto que era a escuridão desses tempos
com a desconfiança que os adultos de hoje em Brasília-DF e outros grandes conglometados
urbanos porventura possam desenvolver em relação à brancura dos interruptores
atuais. Mas eles nem sentem isso, é só um desejo meu de realizar alguma conexão
com o meu medo infantil do breu.
Haverá treva lá no
estágio superior e inalcançável onde balança, como se contasse uma piada eterna,
o grande interruptor de todos os tempos e lugares e situações e presenças e
tudo absoluto e nada em geral que nos regula a mudança de clima em Brasília-DF,
Planalto Central do Brasil, entre 14 e 15 de agosto?
Não sabemos, porque a
partir desse ponto de sentir o calor voltando e ficar feliz conforme nossa
ancestralidade ou infeliz devido ao nosso desejo de posteridade, nada mais nos
é concedido nem sequer imaginar. A não ser que se queira cair numa espécie de
vazio branco como os interruptores à venda nas lojas de material de construção,
correndo-se ainda o risco de tornar improdutiva a vida do adulto que um dia, do
berço ou da caminha infantil, já podia, sim, ao contrário de minha pessoa,
levantar os bracinhos e alcançar o lugar onde se acende a luz caso o antiquado
medo do escuro resolvesse se insinuar.
O interruptor está aceso,
não se atreva a nem pensar em desacioná-lo com sua soberba de quem achou que
nasceu no lado errado do planeta. Aprecie a mudança de clima. Experimente as roupas
leves ou ande quase nu. Beba toda a água que ainda resta na superfície da sua
geladeira – essas parentes próximas dos interruptores que se mobilizaram, fizeram
passeatas, bloquearam a avenida central como trambolhos interplanetários e
conseguiram, ao final, o direito de terem cores além do branco. Pena que quase
todas optaram pelo cinza – falta de imaginação, resultado do excesso de ordem
unida que os protestos traziam embutidos.
Só não apague o
interruptor. Mesmo porque você não conseguiria. Em novembro, alguém na escala
acima dará um soco impaciente do tipo chega-já deu no interruptor e das paredes
do tempo escorrerão as primeiras e regulares águas da nova temporada.
O interruptor será
acionado de novo e teremos manhãs quentes, tardes chuvosas e noites aprazíveis.
Mas isso não depende de você, entenda de uma vez por todas como aquelas
crianças que por mais que tentem não conseguem alcançar o interruptor antigo
que zomba delas pendurado por um fio direto no telhado das casas do Seridó setentista.
Você vai ter que se
acostumar tanto com esse defasado quando com o mais poderosos dos interruptores
em vigência no nosso confuso estágio civilizatório.
Se não consegue desligar
o interruptor, ligue o ar refrigerado que tem oculto por trás do músculo do coração.
É aquele mesmo que você usa quando quer ignorar certas camadas sociais ou
pessoas individualmente, por serem julgadas chatas ou indignas de atenção.
A cada um é dada uma
pequena porção de poder de ligar ou desligar algo.
Você precisa apenas ter a
medida do seu direito.

Tião, vc é demais. Que texto chique.
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