Para a extrema rigidez, a suprema rebeldia. Sobre as pedras
mais compactas, o líquido mais fluido. Frente ao ar mais parado, quase concreto
de tão quente e cálido, o vento frio mais cheio de curvas. De encontrões assim,
esbarrões entre mundos enfiados em mentes distantes do moderno mundo,
sustenta-se a lavoura do Nassar, o romance-pedreira do Raduan. Ali, palavras
dispostas em páginas brutas lembram pedras recortadas pela natureza em caminho
de palha seca. O livro se escancha entre suas mãos de leitor como matéria viva
das substâncias que ocupam – melhor seria dizer, desocupam – aquele casarão de
família primeva.
Não pode haver dialética maior do que a refletida neste
espelho duplo que fixa de um lado a revolta quase orgânica de André e de outro a
sabedoria seguramente pétrea do Pai. O enfrentamento mútuo sustenta a cumeeira
desta casa velha e da outra mais velha ainda, onde se dá o drama incestuoso que
põe em questão em nó único todos os mandamentos que O Pai espalha em feixe de cordas
sobre a mesa do jantar. É duro, espesso, tenso esse enfrentamento, mas também
lírico como o navegar poético de que se compõe todo o livro, contraponto de
palavras minuciosamente escolhidas para contar essa história triste de um clássico
mas tão definitivo conflito de gerações.
Início inscrito em brumas de indefinição exata, desfecho
pintado em sangue de amores mal contidos, Lavoura Arcaica é aquela não-saga que
ergue o proibido para abrir o painel do consentido. Faz isso abrindo
hemorragias de incompreensões que deixam na pele dos personagens e do leitor
hematomas de humanidade cultivada. André e seu desabafo podem ser ainda um eco
distante do relato de Riobaldo, com a atração por essa Ana-Diadorim delimitando
as pedras irremovíveis no caminho das criaturas de papel – nós, do lado de cá,
resmas que se julgam supremas raças.


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