BABYLON, EUROPA





Berlim, antes e após a II Guerra

É sedutora até o último fotograma a sequência inicial de “Europa” (1991), filme da fase inicial do cineasta dinamarquês Lars von Trier. O espectador é como que chamado a entrar na atmosfera do filme juntamente com seu protagonista, sob a convocação de um narrador que nos alicia com imagens marcantes, embora simples – ou justamente por isso – e um texto sugestivo. “Venha comigo”, é mais ou menos a convocação desse narrador ao personagem principal, dita de uma maneira que serve igualmente para quem está do outro lado da imagem – nós.

Ele chega a fazer uma contagem regressiva, para que você opere  uma espécie de transição entre sua vida normal aqui fora e o que a narrativa vai lhe oferecer – sempre você e o personagem condutor do filme, um americano que viaja para a Alemanha no imediato pós-guerra cheio de planos altruístas. Encerrada a contagem, sustentada cinematograficamente por uma estrada de ferro que corre diante dos nossos olhos como se fora sob nossos pés, a realidade daquele momento e lugar na história da humanidade explode em um coquetel molotov de interrogações, incertezas e desconfianças.

Estamos na Alemanha logo após o final da II Guerra, Berlim ainda sob os efeitos da ocupação pelos países aliados, infestada por uma rede dispersa e poderosa de negociantes do mercado negro, ex-colaboradores nazistas tentando sobreviver, ruínas nas ruas e na alma dos sobreviventes, conspirações, riscos e medos – um cenário muito pouco recomendável para seres humanos de natureza inocente. Boas intenções aqui, definitivamente, não são uma arma quente.

Pois bem, “Babylon Berlim”, minissérie em dez capítulos que o serviço de streaming GloboPlay disponibiliza aos assinantes, começa quase da mesma maneira. Formalmente, parece até um plágio – e plágios sempre podem ser lidos também como homenagens. Berlim e seus mistérios, a arte dramática do cinema e da TV e seus limites imprecisos. Não julguemos, apreciemos – porque a série, dura, sombria, sinistra, forte e sem o menor pudor de soar tudo isso sem leveza alguma pra contrabalançar, é ótima.

O curioso da comparação inevitável para quem assistiu ao filme de Trier e se vê diante dessa produção de agora é também o paralelo temporal. Um narrador em off reproduz o mesmo approach de “Europa” com seu protagonista – na série, um investigador policial enviado de Colônia para Berlim a fim de investigar algo e/ou livrar a cara de um prefeito vítima de chantagem (não sabemos, a imprecisão faz parte da atmosfera do produto e altera sim o resultado da soma). Temos a mesma sugestão em palavras e imagens do filme na série, com a diferença de que nesta o condutor da história é levado a sair de uma espécie de estado de hipnose e então acordar paro o drama que lhe convém enfrentar. 


Ambos – o americano e o alemão de Colônia – são pessoas que saíram de seu ambiente natural para encarar uma Berlim sob sombras que escapa ao entendimento e não favorece qualquer tipo de adaptação. Ambos conservam uma espécie de fraqueza natural – em um, uma ingenuidade quase impotente de tão delicada que não ousa sequer se proclamar mas está toda lá; em outro, uma dependência química em face de uma enfermidade que parece de natureza epiléptica. Ambos precisam, igualmente, dar conta de um quadro muito superior ao caráter deles próprios. Mas não têm escolha, é cair nesta cidade em transe e com ela interagir entre becos, esgotos, repartições e cabarés.

O paralelo temporal, o leitor já deve ter desconfiado, surge quando inscrevemos as duas dramaturgias numa linha estendida do tempo. Se no filme de Lars von Trier estamos no caos do pós-guerra, na série atual voltamos no tempo e estamos no imediato pré-guerra. Os elementos típicos da ascensão do nazismo, o clássico e infeliz ovo da serpente de que todos já ouvimos falar e falamos, estão ali. Impressionante é como a atmosfera de ambos os momentos, distribuídos nas duas produções, dialogo e se completa. Juntos, “Europa” e “Babylon Berlim” compõem um painel de uma nação e uma cidade devastada antes e depois da grande tragédia, exibindo tanto os elementos que levaram à aventura megalômana dos nazistas quanto as sequelas que esta mesma desventura deixou depois de ser, a um custo humano absurdamente alto, derrotada. O terror decorrente disso tudo é que os dois momentos parecem assustadoramente próximos, íntimos, irmãos.

Nada se repete exatamente da mesma maneira, mas processos econômicos, históricos e políticos conservam, lascivos como eles só, certos padrões úteis para quem luta por não vê-los se repetir. Dito isso, Brasil, 2020, esta outra realidade de difícil adaptação e compreensão, é definitivamente um bom momento para se assistir a essa minissérie e para rever o filme de Lars Von Trier.

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