Natal, até outro dia
(...)
A desconfiança de que, desde que nascemos e passamos a
crescer e conviver com poucos ou muitos amigos, temos a sensação de conhecer
pessoas tão incríveis para o mundo e tão singulares para nós mesmos que elas
parecem eternas. Sem racionalizar, a gente pensa que pessoas como o amigo
querido não vão morrer nunca. Seus corações vão bater eternamente pra gente. Não
é concebível que pessoas como o amigo tão querido um dia sejam atingidos por um
desastre ou uma moléstia e simplemente parem de estar aqui. Não tem sentido – o
que dá, somente assim, um sentido completo ao adjetivo eterno. O amigo querido
era eterno pra mim e eu não me dava conta.
(...)
O amigo querido e eu a caminho do sertão. Nosso road
movie inventado, em final de semana qualquer. Uma viagem sem planos, aventura
de jovens sem dinheiro e com paixão. Jo, a companheira de então, não foi –
embora Parelhas, para onde íamos, fosse vizinha de Jardim do Seridó, sua cidade
natal. Deve ter sido num daqueles períodos em que o casal parava para respirar.
Não lembro como fizemos parte da viagem – só me ficou o pedaço mais
interessante. De Natal a Acari, o esquecimento agiu pra borrar tudo, como
aquela borracha pequena e precisa na ponta oposta do lápis grafiti escolar. Apagou
sem ligar pra precisão jornalística, ciente de que só interessa o que gera
subjetividade. Não estávamos nas redações, eram as ruas, a estrada – a rota
para o Seridó, a veia aberta da poesia viva de uma civilização teimosa de onde
eu viera e o amigo querido, não. Procedente dos litorais da Areia Branca, era
de outra extração, mas da mesma curiosidade. Onde houvesse gente, vida, cor e
arte lá estaria ele. E assim fomos.
(...)
Havia, na época um personagem de um programa de humor
de televisão, meio hippie retardatário, o Patropi, feito estupidamente bem pelo
ator Orival Pessini. De figurino esteteotipado de velho hippie, Pessini lembrava
muito o amigo querido – ou o contrário. Lembrava assim, na base da caricatura. E
eis que – quem mais, e quem senão este tipo de figura para conseguir o perdão
tranquilo do amigo – um bebum local cismou de sacramentar a semelhança. O pobre
diabo do bebum passou a perseguir o amigo querido pelos salões e corredores do
clube insistindo que ele era o Patropi do programa de TV, gerando uma chateação
tal que resolvemos debandar. Ainda havia o baile da noite.
E neste, o amigo
querido teve sua compensação. Nada de bebuns. Além de encontrar um concunhado
perdido na noite, embeveceu a alma até o limite da embriaguês mais sóbria ao
ouvir, surpreso, o conjunto musical que animava a festa – a banda celebridade
da cidade, Feras – tocar, entre um punhado de sucessos radiofônicos de menor
importância, o tan-tan-tan seguido de start spreadin' the news, I'm leavin' today. Era, sim, a Banda Feras tocando e cantando – e
muito bem – o clássico New York New York. Os olhos do amigo querido brilharam,
ele não acreditava naquele alumbramento de interior, aquela revelação sertaneja.
A canção clássica e o sertão, o mundo pop e a noite do Seridó, uma conexão do
tipo que fazia o coração do amigo querido sar sopapos e engolir a essência do
mundo e do tempo como quem sorve o mel dos mitos.
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