O AMIGO QUERIDO (pedaços)





Natal, até outro dia

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A desconfiança de que, desde que nascemos e passamos a crescer e conviver com poucos ou muitos amigos, temos a sensação de conhecer pessoas tão incríveis para o mundo e tão singulares para nós mesmos que elas parecem eternas. Sem racionalizar, a gente pensa que pessoas como o amigo querido não vão morrer nunca. Seus corações vão bater eternamente pra gente. Não é concebível que pessoas como o amigo tão querido um dia sejam atingidos por um desastre ou uma moléstia e simplemente parem de estar aqui. Não tem sentido – o que dá, somente assim, um sentido completo ao adjetivo eterno. O amigo querido era eterno pra mim e eu não me dava conta.


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O amigo querido e eu a caminho do sertão. Nosso road movie inventado, em final de semana qualquer. Uma viagem sem planos, aventura de jovens sem dinheiro e com paixão. Jo, a companheira de então, não foi – embora Parelhas, para onde íamos, fosse vizinha de Jardim do Seridó, sua cidade natal. Deve ter sido num daqueles períodos em que o casal parava para respirar. Não lembro como fizemos parte da viagem – só me ficou o pedaço mais interessante. De Natal a Acari, o esquecimento agiu pra borrar tudo, como aquela borracha pequena e precisa na ponta oposta do lápis grafiti escolar. Apagou sem ligar pra precisão jornalística, ciente de que só interessa o que gera subjetividade. Não estávamos nas redações, eram as ruas, a estrada – a rota para o Seridó, a veia aberta da poesia viva de uma civilização teimosa de onde eu viera e o amigo querido, não. Procedente dos litorais da Areia Branca, era de outra extração, mas da mesma curiosidade. Onde houvesse gente, vida, cor e arte lá estaria ele. E assim fomos.

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Havia, na época um personagem de um programa de humor de televisão, meio hippie retardatário, o Patropi, feito estupidamente bem pelo ator Orival Pessini. De figurino esteteotipado de velho hippie, Pessini lembrava muito o amigo querido – ou o contrário. Lembrava assim, na base da caricatura. E eis que – quem mais, e quem senão este tipo de figura para conseguir o perdão tranquilo do amigo – um bebum local cismou de sacramentar a semelhança. O pobre diabo do bebum passou a perseguir o amigo querido pelos salões e corredores do clube insistindo que ele era o Patropi do programa de TV, gerando uma chateação tal que resolvemos debandar. Ainda havia o baile da noite.
E neste, o amigo querido teve sua compensação. Nada de bebuns. Além de encontrar um concunhado perdido na noite, embeveceu a alma até o limite da embriaguês mais sóbria ao ouvir, surpreso, o conjunto musical que animava a festa – a banda celebridade da cidade, Feras – tocar, entre um punhado de sucessos radiofônicos de menor importância, o tan-tan-tan seguido de start spreadin' the news, I'm leavin' todayEra, sim, a Banda Feras tocando e cantando – e muito bem – o clássico New York New York. Os olhos do amigo querido brilharam, ele não acreditava naquele alumbramento de interior, aquela revelação sertaneja. A canção clássica e o sertão, o mundo pop e a noite do Seridó, uma conexão do tipo que fazia o coração do amigo querido sar sopapos e engolir a essência do mundo e do tempo como quem sorve o mel dos mitos.


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