Distopia nossa


Quando emergimos, o ar estava sólido. As montanhas, derretidas. As arvores, mumificadas. Foi terrível lutar contra o peso das águas para ao final encontrar lá acima, na superfície, uma força contrária ainda maior. Não havia mais cordilheiras nem rotas, horizontes nem sol. Uma sombra de esfuminho borrava todas as possibilidades. Havia restos de humanidade em campos vastos, mas devastados. Antigos sinais de um tempo de construcão e crença. Ruínas de acordos desfeitos, assinaturas colhidas com esforço virando dejeto nos monturos. Pedaços de fotografias de grandes mobilizações, cédulas, pedaços de livros amarrotados. Quando emergimos, afundamos mais ainda. A profundidade da nova situação mal nos deixava respirar. Restava sair por aí, em bandos, como numa distopia ordinária de cinema. Em busca de sabe-se lá o que.

Lá embaixo, havíamos construído reinos sob as águas. Cliches de criancinhas nas escolas eram estranhamente reais. Grandes obras, pequenas intervenções - tudo fazia parte da nova missão. Havia os ressentidos, como em qualquer lugar acima ou abaixo da água. Mas a natureza daquele mundo em elaboraçao nao lhes dava muito espaço. Cada sentenca agressivamente vazia que lhes saía da boca era imediatamente soterrada pelos ares de mil promessas. Resgatávamos gente que durante séculos vivera nas bordas, penduradas nos abismos. Pessoas que mal sabiam o que era ficar de pé, andar qual bípede, mover-se entre ruas dignas do nome. Logo estavam todos em festa, numa fantasia social de congraçamento e deleite. Os resgatados gostaram de encontrar seu outro extremo e esculpiram novas identidades. Parte deles, usando os instrumentos da escrita e do esclarecimento. A maioria, na euforia dos mercados.

Enquanto isso, lá na superfície, o mar se agitava. Os exilados da fantasia arregimentava suas canoas e, devorando peixes crus e escorregadios da maldade, engordavam ao sol. Ao mesmo tempo em que deixavam queimar suas mágoas para fazer da fumaça resultante um eficaz encobridor de todas as estrelas. Não demorou para o sol minguar, a lua se eclipsar em noite permanente. Dos barcos, os rebeldes deixavam cair trilhões de bombas incendiária aqui embaixo, destruindo com suas pautas arranjadas em evangelhos mal lidos o que estávamos construindo. E as construções foram atingidas, ruindo, ruindo. Quando o fim começou a se mostrar inevitável, grandes e pequenos mestres de obras espernearam em vão. Artífices e técnicos não puderam mais do que bradar. E os antigos habitantes dos abismos nem se deram contra da inevitabilidade do retorno. O ar submarino também foi ficando irrespirável.

Tivemos todos que agonizar no esforço para alcançar a superfície. Nunca poderíamos imaginar o que encontraríamos lá.

Comentários