NA PAULISTA



São Paulo, janeiro 2019

Levei nove horas, um filme de longa metragem completo, um minishow de rock and roll no legítimo formato guitarra-baixo-bateria, algumas compras, um almoço rápido e muitos passos para cima e pra baixo, além de umas fotos do tipo delimitar o momento para perceber, concluir, notar, dar-me conta de que a avenida Paulista aos domingos, naquele baita clima de festa de rua, lembra a avenida Conde da Boa Vista dos meus 18 verdes anos do distante 1984 em, ou no, como queiram, Recife. Já era noite, aí pelas vinte e trinta, quando essa velha ficha de um desusado orelhão do tempo me caiu, lustrando como um engraxate deslocado mas feliz, quem sabe doidão com o cheiro da cêra, tal constatação. Foi quando me dei conta, tudo ao mesmo tempo agora, de que acabara de dar o meu primeiro passo na direção contrário ao estranhamento que a cidade de São Paulo de Piritinga me causara ao longos desses poucos dias desde que cheguei, vindo de uma temporada no Chile. Aqui, há de tudo, sim – menos amor à primeira vista do segundo prédio na terceira esquina.

Entendi que é um processo o aproximar-se de São Paulo. Ainda mais que é uma São Paulo de derradeira hora, uma metrópole de um país que, ao dar três passos pra frente e quatro para trás, deixa-se impregnar por uma decadência que não lhe faz jus à sólida fama pretérita. Por onde andamos, vemos vestígio do que foi, numa moldura química de dependentes em fim de linha que nunca nos deixa relaxar totalmente – algo que, ao menos para nós, nunca acontece no Rio que nos arrebata independente de qualquer mazela. Aqui, há Brasis perdidos no meio do caminho que parecem gigantes trôpegos que a qualquer momento vão desabar sobre a sua pessoa. Lá, no Rio, a natureza, os macicos, certa poesia urbana que evoca Machados e Capitus enevoa a desigualdade e maladramente enrola o visitante incauto. E como somos felizes em meio ao desespero dos locais, que disso nem desconfiam.

Aqui, até o momento em que entrei ainda desconfiado no domingo alegre da Paulista, não havia sentido sinais dessa malemolência que tudo suporta embora a nada consiga vencer de fato. Mas foi chegar aos pouquinhos no alto da ladeira que leva dos Jardins à esquina da Paulista diante do prédio do Tribunal Regional Federal para receber o impacto da festança. Um outro hálito urbano, diversa e inesperada respiração do concreto aparentemente sem pulmão. Lembrou-me o carnaval pernambucano aquela farra de sons, pessoas, artistas, vendedores, moradores de rua, brincantes, crianças e adultos, gays e heteros, cães – muitos cães – e uma balbúrdia absolutamente compensatória.  

Comecei meu passeio apressado, pois sabia ter poucas horas para ter uma visão geral de tudo – pelo Instituto Moreira Sales, que já vinha namorando há uns dias antes. Comecei com uma confusão. Queria ver uma exposição sobre quadrinhos com a esperança de rever alguma das publicações que li na infância, mas esta estava na verdade, descobri depois, no Museu da Imagem e do Som, em outro paralelo. Mas não perdi a viagem, que aqui no IMS fui tomado por uma vasta, rica e variada mostra de desenhos originais de Millôr Fernandes. Eu que sempre achei Millôr um tantinho assim pernóstico demais para os meus sentimentos, hoje o encontrei pra lá de divertido, passável, perfeito. E o curioso é que as charges que estão na exposição, ao parecer terem sido feitas para o momento exato que estamos vivendo, foram todas publicadas em jornais e revistas durante a longa noite do país passado que insiste em se voltar contra o futuro. O acervo da ditadura inteira tem tudo para ser, como se diz, resignificado. Quem tiver suas memórias que bote pra fora no Antiquário Brasil. A hora é agora – sinto que, de um momento para outro, como diz o samba do outro, vai passar (mas meu otimismo não merece confiança e fim do parênteses). Fiquei impressionado com o riscado moleque de Millôr e sobretudo com sua insistência em debochar de generais, comparados quase sempre a pavões em sua vaidade cívica que despreza quem não traja a farda de suas ideias.

Ainda no IMS, aproveitei pra conhecer a sala de cinema. Pena que não dava pra ver nenhum dos filmes da retrospectiva de Nelson Pereira dos Santos. Não – o dia estava para lançamentos, para abrir os olhos ao nosso incômodo presente mesmo. Em cartaz, o badalado Temporada, da atriz sensação do momento, Grace Passô. Um legítimo representante desta nova leva de filmes que tem no Roma, de Alfonso Cuarón, que ainda não vi mas do que estou informado, seu maior representante. Filmes naturalistas sobre vidas pequenas que lutam por transcedência. Perfeitos para espelhar e documentar o Brasil atual (pra não dizer o de sempre) como valem para os mexicanos. Há uma cena de arrepiar, quando a personagem principal, agente de combate à dengue e endemias, visita uma velha senhora e passeia os olhos pela história pessoal daquela criatura, coletando imagens dispersas de uma família anônima. O filme parece um produto do movimento nórdico Dogma adaptado aos tristes trópicos em sua nudez de adornos, trilha sonora e outras cantoneiras que o cinema mais convencional sempre usa. Aqui, somos nós, Brasil real, em ritmo contido, esperança medida, perspectiva zerada.

Saio do cinema direto para o choque com o carnaval atemporal lá fora – um contraste meio letra de Tropicália, a canção, mas também o movimento.  Sobre a cabeca as torres e mirantes quadriculados da avenida, sob o meus pés o asfalto que serve de praia aos habitantes da cidade que faz dinheiro enquanto fabrica solidões. Mas é só festa lá fora. Um almoço num restaurante desses comuns, tipo Giraffas, umas compras ligeiras – almofadas ilustradas com imagens de filmes batidos, pode haver algo melhor pra me relembrar essas férias quando eu voltar pra casa – e logo estou de volta ao mormaço do asfalto que anuncia chuva para breve. Antes da chuva, vem o rock. Picanha de Chernobill está a mil, em solos enviezados sobre a cama de uma bateria segura, diante de uma plateia pequena mas concentrada como se estivera diante de um concerto de Bach. Mas não seria, hein... Só a chuva rápida mas incisiva pra dispersar plateia e músicos. Ainda deu tempo de adquirir um dos CDs da banda, justo aquele que traz a gravação de uma performance ao vivo para melhor relembrar o momento.

Ao contrário de Rejane – que, pra esclarecer, neste domingo tinha um programa familiar pra fazer em Guarulhos e, levando os meninos, me deixou com o ingresso livre para ir onde quisesse – não guardo detalhes. Tenho certa dificuldade com valores, escalas e reconstituições pormenorizadas. É uma falha grave para um velho repórter meio aposentado. Mas a vida me levou pra esse outro rumo de voar bem por alto, tentando, por compensação, captar menos a cor das flores do que as essências que elas espelham no ar. Só preciso dizer que o ingresso do cinema no IMS custou-me meros R$ 6,00 (tenho carteirinha de estudante, sou aluno do Brasas em final de curso, mas sou) e que tudo o mais no local sai bem caro. Pensei em comprar uma cópia em DVD do último doc do João Moreira Salles, aquele sobre 68 e a viagem feita pela mãe dele à China durante aqueles anos movimentados, mas custava R$ 78,00. Preferi aguardar para quando o DVD circular mais e o preço custar menos. O almoço tem pra todos os bolsos, já que há bem uns três shoppings com suas praças de alimentação ao longo dos três quilômetros da Paulista. Lá fora há tanto o que ver e sorver que acho que nestes domingos a alimentação pede outro tipo de comida, diversão e arte – se bem me entendem.

Não deu tempo praticar o doce esporte da curiosidade visual apreciando a feirinha de antiguidades do Masp – nem o acervo do proprio, já que ao chegar lá já se aproximavam as 18 horas e não compensava entrar – mas ao longo das viagens recentes para lugares não muito distantes venho construiundo uma ideia – guarde atrações para uma volta. Estivesse na capital da Ucrânia eu certamente aproveitaria nem que fosse os 45 minutos finais de abertura do Masp, mas São Paulo está perto e o vôo não custa tanto assim, vamos voltar. Como o Rio, meu chamego caótico onde sempre deixo uma carinho extra para a próxima visita. Além do mais, o tempo empregado na sessão de cinema compensa qualquer eventual sensação de perda – foi ganho, indireto. Antes de ir embora, à base de um ligeiro sanduiche do Bobs, ainda pude ver o reboliço da plateia de idade já avançada em busca de bons filmes num conjunto de salas de cinema quase oculto num semisubsolo à margem da avenida. Reserva Cultural é como se chama, uma espécie de praça de resistência da sétima arte  que fica cheia de paulitanos no cair da noite do domingo aqui já um pouco exausto. Na pequena mas simpatica livraria anexa, ainda deu tempo de comprar mais um exemplar de um caderninho para a coleção que, incurável acumulador de miudezas, penso em começar (perfeito, com uma capa de Portinari, pra se juntar ao coreano e ao francês que adquiri na Liberdade, em outro passeio).

E me fui, feliz e reconciliado com Sampa, começando enfim com ela uma conversa aberta e franca, rimada como um rap das distantes periferias. Pleno de Rita Lee, Mutantes, Tom Zé, da turma do Premê, de Arrigo e Ná, das lembranças infantis das novelas e programas da TV Tupi, conectando quase automaticamente rastilhos de memórias que dormiam silensiosas com os meus recém completados cinco ponto três. Em Parelhas, RN, antes de Natal, vieram Recife e São Paulo, nas ondas dos primeiros aparelhos de televisão em branco e preto, dos anúncios de biscoitos que não se encontrava na cidade, nas referências a certa avenida Angélica e rua Bella Cintra, nos textos de Éramos Seis e outras histórias audiovisuais. Depois, com a juventude, chegou a coisa da vanguarda paulista, o cordão da USP-Editora Braziliense, outros marcos que nós, nordestinos colonizados, tão bem sabemos explorar, estudar, consumir, desestruturar à nossa maneira e por fim absorver. Eles não sabem nada sobre nós, desconhecem os nossos trampolins da vitória, nossos Cascudos cobertos de antropológica cultura, mas nós, ah, nós, temos introjetados seus manuais de monumentos, mitos, anúncios, astros e estrelas, movimentos e rupturas. A Semana de Arte Moderna ainda repercute nos sertões do Caicó, orra meu.

E desci assobiando uma melodia de Arnaldo Antunes a ladeira do meu Airbnb numa encosta dos Jardins.

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