Não caiu uma gota de chuva sobre os gramados de Brasília durante a tarde da posse do novo presidente. Mas desabou, desde que o homem deixou a Granja do Torto rumo aos rituais na Esplanada, Congresso e Planalto, um temporal de solenidades. Uma tempestade de civismo datado como há muito não víamos. Uma torrente de queixos erguidos, um vendaval de palavras em riste, uma enchente de tiros, hinos, refrões, galões e medalhas. Posses presidenciais, desde a volta das diretas para Presidente, têm suas solenidades e cacoetes. Mas desta vez foi como se tudo e todos tivessem saído de um quartel-general, com estandartes em punho e formalidades reafirmadas a ferro e fogo.
Nunca, desde o distante raiar de 1985, a espinha da prontidão ritualística militar esteve tão ereta. Sem relaxar no dia seguinte, esta quarta-feira igualmente solenizada pelo ribombar das posses dos ministros. É muito terno encomendado, muito discurso burilado, tamanha carga de performances ensaiadas - tudo, de preferência, com um cheirinho de quem acabou de sair da ordem unida. Ordinário, marche. E não saia do quadradinho ou o sniper mais próximo lhe pega, como bem foram informados os jornalistas mais avoados.
É como se você ligasse a televisão e desse de cara com um episódio de Daniel Boone em cujos intervalos comerciais se exibia aquele catavento da semana da pátria de 1976. Desde que cheguei a Brasília sempre senti no ar, aqui e ali, em lugares e condições específicas, um resto da canção dos ditadores. Viúvos e viúvas daqueles tempos continuam por aqui, saudosos das ordens tão silenciosas quanto impostas da quadra infeliz da nossa história. Desde esta terça-feira, dia primeiro, parece que aquele ar como que se expandiu e condensou-se nas mil e uma solenidades que não deixam em paz os canais de notícias oficiais ou disfarçados.
Tudo isso é pra dizer que, tivesse eu 20 anos, não teria dúvidas: juntar-me-ia com a mesóclise nas costas ao pessoal da contracultura, a quem sempre admirei, e sairia por aí. Perdi a conta dos livros que li de gente que largou tudo e foi respirar outros ares, com um desprendimento heroico, num momento em que o país se tornava uma grande convenção insuportável. Li esses livros durante anos, sempre como uma curiosidade que alimentava minha empatia - logo eu, um sujeito bem presos às ditas normas sociais. Hoje entendo que nunca os compreendi completamente. Foi preciso que os céus de Brasília se abrissem em raios e trovões de nostalgia fabricada para que eu chegasse um pouco mais próximo do que aquela geração teve a ousadia de viver - e vivenciasse minimamente a realidade de que ela buscava distância.
Nessas noites tristes, vai ser um consolo contracultural reler trechos de Verdes Vales do Fim do Mundo ou do Longe Daqui Aqui Mesmo, de Antônio Bivar. Ou buscar nos sebos um velho exemplar da Desobediência Civil de Thoreau. Quem sabe, quem sabe mesmo, acabe enfim me decidindo a ler aquela que foi a narrativa de estimação dos hippies e que uma nova geração redescobriu por outros meios - O Senhor dos Anéis, do Tolkien. Qualquer coisa para combater com a inteligência intrépida dos aventureiros culturais o mofo que a direita de mercado retirou das naftalinas para enfeitar suas vitrines refratárias ao progresso e à tolerância.

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