O legado da atriz





A melhor história sobre Beatriz Segall que conheço me foi contada por um amigo de Recife. A grande atriz estava em cartaz no Teatro do Parque, lá na rua do Hospício da capital pernambucana, apresentando um drama tchecoviano desses em que o grau de angústia compete com o volume de peças de roupas oitocentistas que recobrem os atores. Era muita elegância para pouco ar condicionado, que pifou justamente na noite de estreia. Não seja por isso: lá pelo meio da peça, Beatriz Segall largou todo o distanciamento do texto russo e abandonou a ribalta com um esnobe “com um calor desses não há condições de trabalhar”. E fim.

Por essas e outras – como a simpatia tucana que lhe caía como uma segunda pele – sempre achei que Segall tinha mais em comum com Odete Roitman do que supõe nossa vã teledramaturgia. Se o texto padrão do esnobismo pátrio lhe saía tão bem podia ser por uma questão muito além do talento que ela de fato tinha – não é este o ponto. Se assim foi e minhas injunções não forem tão injustas quanto as sentenças que a personagem jogava à mesa de jantar como um Bolsonaro antes-do-tempo então pelo menos a grande atriz nos prestou um serviço: mostrar o alcance inconfessável dos nossos preconceitos escravagistas. E com anos de antecedência ao período histórico em que tais demonstrações seriam não motivo de vergonha, mas de orgulho.

Durante anos, Beatriz Segall tentou matar Odete Roitman. Não conseguiu porque o valor da caracterização foi tão alto – e tão necessário para a expressão do Brasil dominante ou aspirante a sê-lo – que se inscreveu na alma imaterial do país. Aquela mesma onde estão o carnaval, outras festas populares e a culinária baiana. De maneira que de vez em quando teremos que esbarrar nele ao dobrar a esquina, como acontece precisamente desde a reeleição de Dilma Rousseff. Beatriz Segall se foi mas o espírito de suas principais atuações permanece vivo, para o bem ou para o mal.

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