O interrogatório




Agora que acabou – não as eleições, mas as entrevistas – deixo o meu pitaco inútil: o que realmente incomodava na série com os candidatos a presidente na bancada do Jornal Nacional era um certo clima de tira-teima de mesa de bar. Para não falar em sufoco de antessala de delegacia de polícia propriamente dita. Não poucas vezes tive o pressentimento de que, antes de se completarem os 27 minutos regulamentares de cada interrogatório, o candidato seria algemado ali mesmo na bancada e levado preso para fazer companhia ao favorito absoluto do povão brasileiro.

Era este o ponto: assim como o elefante Lula é presença marcante justamente por invisível na série de entrevistas, o que o público pressentia era o caráter quase policial das, vá lá, entrevistas. Diz-se que o jornalismo tem mais é que ser assim mesmo, é preciso insistir na pergunta, não deixar o entrevistado, sobretudo quando candidato a algo, sair pela tangente, fazer que responde com discurso vazio. Ok. Mas o que vimos foi bem além disso:  assistimos a um cerco do tipo atendente de call center. O sujeito do lado de lá da bancada é praticamente forçado não a responder exatamente ao que está sendo perguntado mas a concordar com a tese que o inquiridor – digo, entrevistador – precisa demonstrar.

Se o inquiridor tivesse a tal da ficha limpa – a dupla de palavrinhas mais canalhas que a política brasileira consagrou – estava tudo bem. Mas o currículo da empresa não legitimava tamanha ênfase e tão agudo grau de cobrança. E os entrevistados podem ser tudo – grosso como Bolsonaro, esquentado como Ciro, impávido como Geraldo ou distante como Marina – menos burros. Com exceção de Marina, cuja “entrevista” não cheguei a ver, todos os demais em algum momento lançaram mão, com a maior das facilidades, do alto-lá mais do que esperado neste tipo de situação.

No final, eleja-se um ou outro, o interrogatório do JN, pretendendo – pra ser bem simplista – reforçar alguma legitimidade de se reafirmar no topo do jornalismo brazuca,  conseguiu mesmo foi fazer todos eles de vítimas. O tiroteio foi tão exagerado que simpatizamos com todos, inclusive Bolsonaro. Falando nisso, quando sai o novo exemplar daquele livro que o JN lança toda vez que faz uma besteira em rede nacional no período anterior às eleições? Material já tem. De sobra.

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