Memes viajam no tempo




Natal, anos 90.
São Paulo, ontem à noite.

A palavra “meme” ainda não existia. Mas a ideia já estava no ar. Eram os anos 90 e na redação em que eu trabalhava, da TV Cabugi, hoje Intertv Cabugi, em Natal, RN, só um bom “meme” (ou uma boa, o gênero me escapa) ainda não batizado para matar o tempo nos plantões de sábado. Natal era uma cidade então muito pouco incomodada pela violência gerida pelos comandos instalados nos presídios – o que se de um lado significava menos violência corrente, por outro resultava em plantões absolutamente desprovidos de notícia, e não apenas na área da segurança. Não por outro motivo, os repórteres e editores da emissora foram se tornando especialistas em usar a criatividade para recobrir com demãos de interesse adicional um noticiário a princípio sem sal na terra do sol.

As/os memes, que já me permito escrever sem aspas pudicas, nada tinham a ver com o noticiário em si. E sim com os espaços, vastos, extensos, demorados latifúndios horários que se estendiam entre o início da jornada e o encerramento de cada telejornal local. Era preciso preencher este vazio – e para isso valia usar a mesma criatividade que fazia de uma reportagem sobre os ensaios das escolas de samba locais um pequeno conto audiovisual sobre uma porta-bandeira que na vida real era uma matrona de vila.  Mas voltemos aos memes de antanho: eram as piadas de sempre entre colegas, jornalistas que melhor faziam em usar a língua sempre afiada para construir um chiste coletivo do que para atingir um deles em particular.

Foi assim que nasceu a “UDR Jovem Mas Nem Tanto”, que, caso houvesse àquela altura as memes de hoje, com padrão gráfico de interface de internet, certamente seriam escritas assim, com iniciais em caixa alta para reforça o objetivo da piada. Necessário lembrar – ou dizer, para leitores mais jovens, caso haja, do que muito duvido – que a UDR daquele momento era a sigla da União Democrática Ruralista, uma das primeiras manifestações da direita pós-ditadura, ainda muito próximo da redemocratização formal de 1985, envergonhada de se mostrar assim em roupas de baixo. A UDR liderada pelo futuro senador Ronaldo Caiado foi como que o primeiro grito dessa direita que hoje é o que todos sabemos ser – quando por obra e graça do golpe parlamentar anti-PT e esquerdas em geral foi tornando normal não apenas expressar pontos de vista conservadores, mas também toscos e anticivilizados comentários que vão  muito aquém do adjetivo usado nesta mesma frase. Enfim, a selvageria era apenas uma promessa.

Mas que promessa: a UDR contrapunha-se ao também então nascente Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, o MST que, com sua pauta setorizada – embora vital para a crítica do país que já então éramos – vinha levantando um grito geral que desaguaria no que somente anos depois chamaríamos de movimentos sociais. Tempos em que a cidadania, de par a par com a selvageria, também era uma promessa.

Numa redação sufocada pela tranquilidade dos dias lá fora, muito distante dos enfrentamentos tantas vezes forçados dos dias que correm, era preciso digerir essas novidades. Especialmente numa época em que os assuntos duravam meses, quando notícias repercutiam por séculos antes de serem substituídas por outros e outras. A mídia saturada se encarregava tanto de nos fazer esgotar as polêmicas, dissecando suas várias possibilidades, quando, pura e simplesmente, enchiam o saco. O que nos restava num tedioso plantão de sábado em que a felicidade significava ouvir os primeiros acordes de Gal Costa interpretando Canta Brasil na abertura de Deus Nos Acuda, a novela das sete de então que decretava finalmente o encerramento do plantão? Fazer joça, glosa, piada – meme, sim, embora sem esse nome.

E foi assim que surgiu a UDR Jovem Mas Nem Tanto. Ao que me lembro, haveria na Natal daqueles dias um “comício” – é impossível escrever tal palavras em umas aspinhas para dar compostura – da UDR lá pras bandas do Alecrim, o bairro pau-pra-toda-obra da cidade. Katia Abreu, a feitora-mor que se tornaria senadora e, por artes das amizades femininas, também se converteria surpreendentemente em defensora de Dilma Rousseff no processo de impeachment, já era então figura de destaque no movimento ruralista. Na redação, um bando de jornalistas meio desocupados em final de plantão fazia autogozação com a própria condição de desprestigiados frente àquela já então poderosa organização, incrementando o pacote com o fato de já não sermos tão garotos assim.

Então criamos, qual estivéssemos numa assembleia formal, a UDR Jovem – que éramos nós. Era aquela brincadeira de fazer da autodepreciação um elemento de força, invertendo os sentidos pra reforçar o seu contrário. Achamos pouco: faltava algo à nossa  UDR Jovem. Para completar a ironia toda, acrescentamos o fator etário e admitimos: “somos a UDR Jovem Mas Nem Tanto”. Risadas garantidas – antídoto perfeito para assimilar fantasmas políticos que já então começavam a nos rondar. Como éramos inocentes – sem sequer pressentir o quanto isso tudo iria se intensificar.

Essa história está sendo relembrada aqui hoje a propósito de outra meme – essa sim atual, de verdade, plenamente batizada. Hoje, no dia seguinte a um debate presidencial (no qual estamos ficando especialistas após tantas eleições – e que Deus e o povo mobilizado as mantenha), esperamos ler as análises e rir com as memes. Talvez mais a segunda atração do que a primeira. Porque por vezes a  meme supera a interpretação. A meme ideal é simples e bem humorada, trazendo uma observação a mais além daquela que já está na mente de todos. É uma imagem, uma colagem, quase uma tira de quadrinhos que consegue elaborar o que a impressão geral sabe, intui, fareja – mas não consegue empacotar de maneira objetiva. É superficial, fazendo pensar por alto – mas só o suficiente para puxar o riso. Na medida certa para o internauta apressado, ansioso e nem um pouco interessado em ir além do que quer que seja.

A meme é como um candidato-foguetão que sobe nas pesquisas saindo do nada e com uma força que parece impossível de ser detida – mas que pode desabar inesperadamente numa velocidade ainda maior do que aquela com a qual subiu. Ou não, dependendo  do grau de similaridade entre o eleitor e as novas redes. Vocês sabem de quem estou falando, mas este não é bem o assunto aqui.  

Fiquemos no paralelo entre a meme batizada do debate da Band e a UDR Jovem Mas Nem Tanto de antanho. O Cabo Daciolo – que, longe de puxar risadas, já me causou muito constrangimento de telespectador durante as sessões de votação da Câmara a que assisto por dever de ofício e curiosidade cidadã – saiu-se com uma tal de URSAL que, não há como não comparar, parece a UDR Jovem Mas Nem Tanto com sinais trocados. Se é que alguém ainda não tomou conhecimento, seria uma entidade conspiratória que uniria todos os países da América Latina, derrubando as fronteiras e nos juntando tanto à Venezuela quando à Argentina numa mesma nação. Ou seja, bolivarianismo para ignorantes. Ou lunáticos.

Memes invadiram a rede e fizeram do momento URSAL uma capa geral de risos que obnubilou tudo – saúde, educação, salários, corrupção, gatos e papagaios que os candidatos pudessem explorar. Sem Lula ocupando uma daquelas bancadas, a URSAL, mais do que virar a piada da noite e do dia seguinte, ainda se converteu na mais perfeita representação do programa todo: uma farsa não por causa do que foi dito ou não foi dito na parte “séria”, mas por expor, involuntariamente o elefante retirado à força de cena.

É recorrente a imagem do teatro do absurdo, quando se instala um elemento estranho no palco – o elefante, um camelo, um bode ou um pavão – para  causar efeito dramatúrgico na plateia e estimular o pensamento reflexivo. Ontem na Band se deu o contrário: faltou o elefante sem o qual o debate político fica, no mínimo, pela metade. E a URSAL do Cabo Daciolo, com sua ciranda de memes disparados no dia seguinte, foi como uma retumbante demonstração dessa ausência. Na falta do candidato preferido da nação, ganhamos uma piada. Como forjávamos outras na falta de notícia nos plantões da Natal dos anos 90.

Diz um clichê que no Brasil tudo acaba em pizza. O debate da Band, ao excluir Lula, fez tudo terminar num momento-meme. Pareceu divertido, superficial, ligeiro e esquecível – mas involuntariamente poderá se tornar muito significativo para ser ignorado no futuro. Seja ele qual for.

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