Paixões vitorianas e nem tanto



Inglaterra, era vitoriana

Depois de mais de cem calejados anos de atividades, o cinema é pródigo em imagens fortes, definitivas, marcantes. Jack Nicholson enfiando a cara maligna no buraco aberto por ele a  machadadas num hotel isolado. As bicicletas dos meninos do subúrbio de Los Angeles levantando vôo para fugir de uns caras bem estranhos e proteger um carinha mais esquisito ainda. A luminosidade de um vidro circular vermelho-vivo que se acendia ainda mais forte quando HAL-9000 falava aos astronautas de Stanley Kubrick. São muitos casos. Mas há um quase esquecido que, por mais simples, soa tão mais forte: Maryl Streep, o rosto arisco coberto por um capuz, virando lenta mas inexoravelmente na direção de Jeremy Irons enquanto é fustigada pelas ondas que açoitavam o arriscado quebra-mar na ponta do qual perigosamente está.

O filme era A Mulher do Tenente Francês, o diretor Karel  Reisz, o roteirista ninguém menos que o célebre dramaturgo Harold Pinter. Corriam os anos 80 no nordeste do mundo. Streep estava despontando para ser o que hoje sabemos que é. O mundo ainda nem havia degelado diante do seu rosto meio frio meio em brasas em A Escolha de Sofia. A Mulher do Tenente Francês é metalinguístico: tem um filme dentro de um filme. Streep e Irons são os atores-protagonistas. Assistimos ao filme que está sendo rodado e aos bastidores dessa gravação, com dois casos amorosos paralelos.

Na era vitoriana, essa mulher sempre vivendo à beira do penhasco e envolta em brumas é fustigada não só pelas ondas do mar contido como e principalmente pela rejeição social devido a outro envolvimento amoroso. Nos bastidores, o casal de atores consolida cada qual uma traição conjugal. No passado, havia o peso da moral vitoriana. No presente, vigora a liberdade que despiu o sexo daquela roupagem negra e pecaminosa. Mas, ao final, os vitorianos como que deixam para trás os atores da era moderna na ponta perigosa daquele mesmo quebra-mar açoitado pelos ventos da velha moral. O avanço de hoje pode não corresponder à ousadia de antigamente. Não se pode datar tão completamente assim o comportamento humano. O tempo não manda necessariamente nas paixões - e no que fazemos delas.

A Mulher do Tenente Francês está de volta pra quem se dispuser a pagar umas 60 ou 70 pratas no box "Literatura do Cinema - John Fowles", que a sempre surpreendente distribuidora Versátil colocou no mercado (Livrarias Cultura e Saraiva, especialmente) com filmes feitos a  partir de livros desse autor. Na mesma caixa temos também O Colecionador e Mago-O Falso Deus. Vale a viagem àquele tempo e lugar.

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