Brasil, agora mesmo
Há livros que são, em seu tempo e lugar, divisores de águas. Há outros que funcionam como verdadeiras placas tectônicas dividindo o mundo das ideias entre um antes bem menos luminoso e esclarecedor e um depois onde tudo soa mais límpido, claro, vasto, profundo. Ninguém precisa ter lido Raízes do Brasil e Casa Grande e Senzala para saber que foram divisores de águas. São análises e tratados tão estabelecidos na biblioteca que desvenda o Brasil cuja simples reprodução de suas idéias por jornais, tevês e revistas já faz com que qualquer pessoa minimamente interessada acabe tento algum contato com eles e deles um conhecimento, se não total ou profundo, ao menos suficiente para saber do que se trata.
Mas quando surge um novo estudo com o poder das placas tectônicas de criar uma invisível mas não menos definitiva linha d'água de fronteira entre tempos científicos anteriores e posteriores, é bom não se contentar com o que dele dizem jornais, tevês e revistas. Sobretudo quando se trata de um livro que não agrada jornais, tevês ou revistas. E especialmente no momento que vive o Brasil hoje, de busca desenfreada para descartar, minimizar e se possível anular qualquer tipo de avanço social que tenha sido feito durantes os recentes anos por uma coalização política comandada pelo PT, um partido de esquerda sensíveis às necessidades populares.
Por tudo isso, o fenômeno Jessé Souza e seu livro A Elite do Atraso surpreendem. O livro faz mesmo uma releitura do divisor de águas Raízes do Brasil, de Sérgio Buarque de Holanda, entre outros tratados já considerados clássicos, na busca por mostrar ao leitor confuso diante das encruzilhadas político-civilizatórias do Brasil de hoje uma explicação razoável para aquilo a que estamos assistindo. A Elite do Atraso reposiciona na historiografia brasileira a centralidade da escravidão como fator determinante para explicar o conjunto de males que afligem o país. Faz isso negando Holanda e outros estudiosos que se tornaram célebres cada um ao se estabelecer como divisores de águas. Mas a placa tectônica que é Jessé Souza demostra seu ponto de vista de forma a sacudir a visão que cada um de nós foi construindo ao longo do tempo, com base nesses livros e suas reproduções em outros meios. Visões de um tempo, de um país, de um fato são sempre construídas de forma muitas vezes sutis, enfatiza Souza.
Uma amiga certa vez usou um adjetivo que considero empacotar muito bem A Elite do Atraso (e certamente o livro lançado ou relançado à sombra do seu sucesso, Subcidadania Brasileira, em destaque em qualquer livraria): "fundamental". O adjetivo que já serviu de slogan publicitário para a revista que faz a cabeça da classe média escravagista brasileira (e que já foi mais ligada ao "centro" na justa acepção da palavra) define como nenhum outro a serventia deste livro. É preciso que ele seja lido e pelo maior número de pessoas possível. O Brasil necessita desesperadamente rever a si mesmo - e por outros ângulos que não aqueles tão gastos quanto consagrados. O mais-do-mesmo da imprensa acomodada e do telejornalismo agressivo-panfletário não é capaz de criar nada. A Academia deve como nunca sua contribuição ao país. E o fato de A Elite do Atraso estar há semanas no segundo (segundo!) lugar das listas dos livros mais vendidos no país (Subcidadania Brasileira já aparecer ali pela oitava colocação) é algo a ser celebrado, mantido (ops) e divulgado. Nunca um livro foi tão importante no nosso próprio tempo e lugar.

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