Petrópolis, RJ, julho 2018
São Cristóvão, Rio, Julho 2018
Por que o Museu Imperial de Petrópolis, no estado do Rio, é tão bem cuidado, e o Museu Nacional, na Quinta da Boa Vista, na cidade do Rio, nem tanto? Ambos foram residências da família imperial brasileira - uma a oficial e outra a casa de campo para onde o imperador e sua corte fugiam quando o verão carioca se tornava escaldante demais. Quem entra em um e outro percebe de imediato a diferença de condições - até nas normas para o próprio acesso.
No Museu Imperial, o visitante usa calçados especiais para não desgastar o piso - que é, visivelmente melhor conservado do que o do Museu Nacional. A disposição dos móveis e objetos, o próprio silêncio meio cerimonial; a, digamos assim, cenografia toda do primeiro produz uma solenidade que inexiste no segundo. E não se trata apenas de uma questão de ser mais ou menos informal. Andando por um e por outro, somos compelidos a ter muito mais respeito pelo Museu Imperial do que pelo Museu Nacional.
Um é absolutamente bem cuidado. No outro, percebe-se um certo desleixo. Um - o Museu Imperial de Petrópolis - fica mais longe, em outra cidade, cujo distanciamento em relação à balbúrdia do Rio já estabelece uma gradação. Outro - o Museu Nacional - está plantado no bairro de São Cristóvão, na zona norte, e aos finais de semana tem seus jardins ocupados festivamente pelo carioca que mora além da zona sul, ponteando os vastos gramados da Quinta da Boa Vista com um povo de colocação, humor e força de expressão bem diverso do que se vê em lugares como a avenida Visconde de Pirajá, em Ipanema.
Um, o Imperial, cobra ingresso bem mais caro que o outro, o Nacional. Um, o Imperial, tem um acervo de valor simbólico muito mais impactante embora visivelmente menor. É mais seleto, pra usar um termo que os tempos atuais elevaram à condição de superior. Outro, O Nacional, é um brique-a-braque com um sem número de objetos de valor científico e demonstrativo que, se encanta sobretudo crianças curiosas e pais ávidos por proporcionar uma experiência científica aos filhos, ao final não deixa de também configurar algo como uma feira popular ligeira de curiosidades naturais, arqueológicas, históricas, folclóricas.
Em suma: o Museu Imperial, com administração privada (e aqui não se quer dizer que isso represente o melhor em relação à gestão pública mas apenas sublinhar a distinção), bem cuidado em todos os detalhes, conservado como se espera deste tipo de lugar, permite e estimula a experiência sensorial de vivenciar minimamente um outro período histórico, com o distanciamento que eleva e define melhor essa possibilidade.
Já o Museu Nacional, com administração da UFRJ (e a forma como as universidades públicas voltaram a ser tratadas dispensa comentários), tem instalações não tão bem conservadas assim (curiosamente, é o mesmo prédio que certo visitantes estrangeiro do século XIX definiu como "um casebre" indigno do imperador), com uma disposição que mistura a experiência de visualizar curiosidades naturais, culturais e históricas com o hábito de fazer um simples pique-nique de fim de semana nos seus jardins. Nisso, o Museu Nacional admite uma informalidade que, embora prática e acessível para o grande público que o procura, resulta em prejudicial tanto no aspecto da conservação quanto na falta de certo ritual de passagem que deve ocorrer por dentro de qualquer um que entra num prédio vital para a construção do próprio país. Além de outra injunção imediata: por ser mais popular não merece ser melhor tratado?
A boa notícia é que vem aí uma reforma no Museu Nacional para acolher, conservar e exibir melhor os 20 milhões de itens (20 milhões!) que lá estão no seu acervo. A propósito, o Museu Nacional fez 200 anos no mês passado. Vale a reforma do Museu Nacional como vale a visita ao Museu Imperial, tão importantes representantes de outros tempos deste nosso país-lugar.


rapaz, que premonição. estávamos no rio na mesma época, vcs foram lá num e eu fui dois dias depois ou no outro, não lembro. estou chocado.
ResponderExcluirmuito bom comentário, tião. contém, mesmo, uma certa premonição.
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