Barcelona, Espanha, julho 2017
Outro dia, meio saudoso das férias de julho do ano
passado, coloquei lá no Facebook uma foto do último dia que passei com minha
família em Barcelona. Era apenas uma imagem, naqueles amplos espaços próximos à
Barceloneta, uma foto feita enquanto conhecíamos a região guiados pela amiga
Katja, nossa nômade preferida que depois de viver em Brasília passou uma longa
temporada em Salvador e de lá se pirulitou para a cidade espanhola.
Imediatamente, minha cunhada Izabel Cristina – que para
o mundo inteiro será sempre Titina – comentou sobre minhas roupas,
impressionada com o fato de eu estar todo vestido, de calça, camisa e tênis,
num lugar tão quente. Ao fazer o comentário, Titina estava em Madri,
participando de um curso especial para atores e o mês era o mesmo, julho, um
ano depois. Portanto, o calor era idêntico. “Tião, como é que você aguentava
vestir essa roupa neste calor?”
Eu, Rejane e Titina somos calejados em matéria de
calor. Quem brotou para o mundo cuspindo terra seca nos tabuleiros secos do
Seridó já nasce meio que com uma camada protetora adicional para as canículas
da vida. O frio é que não é nossa praia. Mesmo assim, tanto eu, quanto Rejane
e agora também Titina (que já havia dado seus giros pela Europa mas não durante
o cada vez mais temido verão do velho mundo), tomamos um susto. Mesmo
informados, não estávamos exatamente preparados para aquilo.
Lisboa, de cara, lembrava Caicó. Você sai do aeroporto
e um bafo quente lhe dá boas vindas. Mérida, a antiga colônia de férias dos
gladiadores romanos na Espanha, era Currais Novos sem tirar nem pôr. O
restaurante onde o ônibus parou para lanche-café-xixi no percurso entre Lisboa
e Madri estava muitos e muitos graus mais quente do que o antigo Restaurante da
Serra. Isso mesmo, aquele que ficava plantado no alto da Serra do Doutor, na
entrada do agreste do Rio Grande do Norte, e onde era um prazer descer um
instantinho do ônibus da Jardinense para comer aquele sanduíche de carne (muito
melhor do que o de Tangará, que já é, ou foi, um páreo duro nessa comparação).
Quando chegamos a Saragoza, ufa – que alívio. Um rio lateral à célebre e quase
infinita catedral da cidade conferia ao ar local, ao menos naquele sítio
específico, um frescor de umidade que imediatamente me fez pensar: “Finalmente
vencemos os desafios da BR-427 e chegamos a Natal.”
Agora, uma notícia no jornal confirma uma antiga
profecia – feita no mais profundo, ardente, fanático, quente e mítico dos
grotões brasileiros – e cimenta de vez minha até então fugaz impressão de que o
Seridó é uma Suíça que não ousa assim se nomear. A notícia é de que o europeu
vai ter que se acostumar de vez com essa nova forma de interagir com a temperatura,
bem diferente de sua tradição climática. A cada verão, não se trata mais de “ondas”
de calor – mas de algo que veio pra ficar. E a notícia vem a propósito das
altas temperaturas do verão atual, igualzinho ao que experimentamos no ano
passado – e o que explica o espanto de Titina diante de minha indumentária. É
tudo efeito do aquecimento global, que ninguém consegue deter.
O Acordo de Paris, aquele acerto entre nações
grandonas para o qual Trump torceu o nariz, prevê um esforço para reduzir o
aquecimento global entre 1,5 e 2º C. Para os cientistas que estudam essa
escalada, não vamos desaquecer, mas torrar sob uma elevação de 3ºC. O medo futuro
e a sensação já presente diante disso talvez explique o fato de, entre
dicionários virtuais, joguinhos de tudo quanto é formato e modelo, medidores de
índices variados de saúde, canais de TV e rádio, tocadores de MP3 e mais um sem
número de possibilidades, um aplicativo dos mais simples seja também um dos
mais fascinantes – e, imagino, acessados: o das temperaturas mundo afora.
Pelo menos para mim. Esteja trabalhando ou
planejamento férias, em férias propriamente dita ou voltando pra casa, estou
sempre olhando meu aplicativo de temperaturas pelas cidades do mundo. Minhas
preferidas são, obviamente, Brasília, Barcelona, Natal e Parelhas. Sempre em
dia com o clima nas mais queridas cidades do mundo, certamente serei um dos primeiros
a saber quando o sertão, aquele que iria virar mar na previsão de Antônio
Conselheiro, virar Europa.

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